Salto para o Futuro

Segunda e quarta,
TV Escola - 18h

Entrevistas

Maria Tereza Esteban

Realizada em: 12/2/2004

Atuação: Professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense e participante do Grupo de Pesquisa Alfabetização dos Alunos das Classes Populares.

Obras: ESTEBAN, M. T.; SILVA, J. F.; HOFFMANN, J. (Org.). Práticas avaliativas e aprendizagens significativas em diferentes áreas do currículo. 2. ed. Porto Alegre: Mediação, 2004; Escola, currículo e avaliação. São Paulo: Cortez, 2003; Avaliação: uma prática em busca de novos sentidos. Rio de Janeiro: DP&A, 2000.

Matrizes Curriculares

Salto – Qual é a relação entre avaliação e educação?
Maria Teresa – A avaliação é um dos processos fundamentais de todo o processo educativo, então, se nós considerarmos, mesmo nas práticas cotidianas, de educação informal, nós vamos ter um conjunto de procedimentos de avaliação dessas práticas, desses processos, dos seus efeitos.
Nas práticas mais formais, também, a avaliação vai acompanhando e vai produzindo alguns procedimentos, alguns instrumentos, alguns processos mais formais, sempre no sentido de estar acompanhando o processo educativo e poder verificar os seus efeitos, sobretudo nos educandos e no processo educativo como um todo. Assim a avaliação é, pelo menos do meu ponto de vista, um dos eixos centrais da educação, porque através dela é que a gente pode ir equilibrando esse processo, tendo algumas contribuições durante o próprio processo e não apenas após o seu efeito já estabelecido, já visualizado, enfim, a gente pode ir regulando as nossas próprias práticas.

Salto – Quais são os diferentes tipos de avaliação e os seus significados na escola?
Maria Teresa – Parece-me que na nossa escola nós temos, fundamentalmente, uma avaliação classificatória, que vai se realizar através de instrumentos diversos e de procedimentos diferenciados, muitas vezes em modalidades diferentes, mas que têm como eixo fundamental a produção de uma hierarquia dos estudantes, a partir de determinados padrões previamente estabelecidos. Então, essa avaliação, ela vai estar muito articulada a uma pedagogia, que alguns chamam da "pedagogia do exame", em que todos os procedimentos pedagógicos vão estar atravessados por práticas que visam ao controle e à classificação. Dessa forma, nós vamos ter uma avaliação que, a partir de um padrão predefinido, vai criando mecanismos de verificação do ponto em que cada estudante ou que cada grupo e cada setor se encontram, de acordo com aquele padrão que é tomado como referência. Quais os efeitos disso para o processo educacional? É que nós vamos criando todo um conjunto de procedimentos, não só de avaliação, mas todo um conjunto de procedimentos pedagógicos que vão estar alimentando essa idéia da hierarquia — e que estão também sendo alimentados por essa hierarquia — e aí nós vamos estabelecendo algumas pautas que são, por princípio, excludentes. Então, parece-me que a avaliação classificatória vai estar bastante vinculada aos processos de produção da exclusão escolar, como parte dos processos de exclusão social.

Salto – Como é possível avaliar a escola como um todo?
Maria Teresa – Acho que é fundamental que se coloque a escola, como um todo, num processo dialógico. É claro que as práticas classificatórias, elas muitas vezes propõem a avaliação da escola como um todo. As práticas classificatórias não se limitam à classificação dos estudantes, elas são práticas que têm modalidades diferenciadas que vão atingindo essa instituição na sua totalidade. Há formas classificatórias de se avaliar a escola como um todo mas, no meu ponto de vista, o principal movimento da avaliação da escola, como um todo, deveria ser estabelecer práticas dialógicas por meio das quais as diversas esferas escolares pudessem estar dialogando entre elas e dentro delas, e que essa prática dialógica se torne uma prática que vá alimentando a reflexão sobre o processo educacional que se realiza ali, naquele espaço. Nós podemos ir criando mecanismos cotidianos e mecanismos mais pontuais que possam favorecer esse movimento de reflexão sobre o trabalho que nós estamos realizando, porque aí nós só podemos fazer essa reflexão considerando todos os sujeitos que estão envolvidos nesse processo, considerando as condições de trabalho, as circunstâncias em que esse trabalho é realizado. Enfim, nós vamos abrindo um pouco mais esse leque e podendo perceber o conjunto de relações que vai sendo constituído nessa prática pedagógica e também que formas nós temos para favorecer esse trabalho pedagógico, criando mecanismos para potencializar o que esse processo tem de melhor e para poder estar solucionando os seus problemas.

Salto – Como é possível construir uma avaliação que ultrapasse os limites técnicos?
Maria Teresa – Essa questão da perspectiva técnica da avaliação vem sendo bastante criticada porque, tradicionalmente, o que nós temos em torno da discussão da avaliação são os instrumentos e os procedimentos.
Quais são os melhores instrumentos de avaliação? Em que circunstâncias, como é que eu procedo numa situação ou noutra? Então, nós ficamos na questão técnica. Como fazer? Mas nós não temos tão consolidada, na discussão sobre avaliação, o próprio sentido da avaliação e o sentido do processo educacional que está sendo implementado, que está sendo proposto. Nesse sentido, parece-me que é fundamental recuperarmos a idéia de que avaliar vem de atribuir valor, portanto, é preciso uma reflexão não só sobre os procedimentos utilizados, sobre os instrumentos que estão sendo trabalhados mas, sobretudo, que valores estão orientando a proposição desse processo pedagógico, que vai se relacionar nos diversos contextos educacionais. Que valores são esses? Para que nós estamos educando? Quais são as nossas finalidades fundamentais no processo educativo? Parece-me que também é muito importante que a gente vá pensando quais são as conseqüências do resultado que essa avaliação vai revelando e trazendo essa discussão não apenas para o contexto mais limitado, do que a gente pode chamar de ensino-aprendizagem no sentido de domínio de conteúdos ou desenvolvimento de competências, mas que a gente possa estar pensando esse processo educacional como parte da produção da vida dos sujeitos, como parte da produção da vida social e, portanto, que valores estão encaminhando essa prática pedagógica como uma prática humana e como uma prática social.

Salto – Agora, gostaríamos que você falasse um pouco mais sobre o papel da avaliação no processo de ensino-aprendizagem.
Maria Teresa – Acho que, sobretudo, a avaliação tem um papel reflexivo, na medida em que, nos procedimentos de avaliação e no processo de avaliação amplamente considerado, nós temos a possibilidade de estar retornando ao que vem sendo realizado. Nós temos, também, a possibilidade de estar projetando novas possibilidades, novos caminhos, novas questões, então a avaliação traz em si uma dimensão reflexiva bastante forte e eu entendo que essa deva ser a dimensão a ser ressaltada na avaliação porque, como eu dizia, o que temos ressaltado, sobretudo, nas práticas classificatórias, é o controle e a seleção. É claro que até para realizar controle e seleção é preciso uma dimensão de reflexão. Eu entendo que seja necessário inverter. A prioridade está no processo reflexivo. Para que eu realize a reflexão, uma reflexão que me ajude a compreender melhor esse processo ensino-aprendizagem, essa dinâmica estabelecida, os resultados alcançados, os múltiplos processos que a dinâmica pedagógica vai instaurando na própria sala de aula. Para que eu possa estabelecer essa dinâmica reflexiva, preciso de alguns mecanismos de controle, sim. Mas aí o controle está subordinado à reflexão e não a reflexão subordinada ao controle, o que me parece que é o movimento mais freqüente que nós temos. Essa avaliação marcada pela idéia da reflexão, que alguns de nós temos chamado de avaliação como uma prática de investigação, ela é parte do processo ensino-aprendizagem, principalmente como um processo que vai tentar compreender melhor esse processo ensino-aprendizagem, compreender melhor a multiplicidade que atravessa uma sala de aula, multiplicidade de culturas, de conhecimentos, de formas de aprender, de processos de aprendizagem, de resultados. Como é que as práticas pedagógicas vão sendo mais favoráveis a determinados modelos de aprendizagem? Freqüentemente, elas são menos favoráveis a outros modelos, então para isso é preciso que a gente compreenda essa diferença, para poder proporcionar atividades pedagógicas, dinâmicas de ensino, proposições que sejam favoráveis à aprendizagem de todos e não só à aprendizagem daqueles que se encaixam nos modelos previamente selecionados. Essa dimensão reflexiva ou investigativa da avaliação potencializa o processo educacional, numa projeção de futuro. Nós realizamos uma reflexão até aqui, nós fizemos assim, chegamos assim, temos essas questões, solucionamos desse modo, não solucionamos de outro e, para que a gente possa continuar, mostra-se mais favorável esse tipo de intervenção, ou aquele outro tipo, ou tipos diferenciados, na medida em que toda turma é heterogênea e demanda processos diferenciados.

Salto – Como é que a gente pode relacionar fracasso e sucesso escolar com inclusão e exclusão social, nessa perspectiva da avaliação?
Maria Teresa – A avaliação não é responsável nem pelo fracasso escolar, nem pela exclusão social e, portanto, não é apenas mudando os procedimentos de avaliação que nós vamos produzir sucesso escolar e inclusão social. No entanto, as práticas de avaliação, como as demais práticas pedagógicas, ao direcionarmos a questão para a avaliação, as práticas de avaliação estão marcadas por essa dinâmica social de inclusão e exclusão e por esta tensão social, que é uma tensão de inclusão/exclusão dos sujeitos na própria dinâmica social. Estão marcadas também por essa tensão escolar, que vai se dando nesse diálogo entre o sucesso e o fracasso. Dessa forma, volto lá na avaliação classificatória, quando nós produzimos uma avaliação que tem por princípio a produção de uma hierarquia que classifica e seleciona. Se eu classifico e eu seleciono, para que que eu classifico e seleciono? Para incluir os melhores classificados e excluir os piores classificados? Se nós estamos preocupados efetivamente com uma educação de qualidade para todos, o princípio não pode ser esse. Então, nós precisamos produzir outras modalidades de avaliação, que tenham como ponto de partida a certeza de que todos aprendem, todos têm direito a uma escola de qualidade, cabe a nós, enquanto escola e sociedade, criar condições para uma escola de qualidade para todos. Aí a avaliação é um procedimento importantíssimo pela sua dimensão reflexiva, como eu falei anteriormente, pela sua possibilidade de projetar possibilidades e reflexões, e por esta perspectiva que ela traz, de poder regular os processos pedagógicos, mas não no sentido de promover a seleção, mas regular os processos pedagógicos no sentido de proporcionar, favorecer a inclusão de todos. A avaliação não resolve, mas sem dúvida é necessário que sejam construídos procedimentos mais democráticos de avaliação, que possam sintonizar com o movimento de democratização da escola e da sociedade.

Salto – Como é possível pensar o processo de avaliação na perspectiva da complexidade?
Maria Teresa – Acho que é fundamental, porque se nós pensarmos no processo ensino-aprendizagem, na dinâmica da sala de aula, na dinâmica da escola ou das diversas instituições que promovem, que realizam o processo educacional, nós vamos ver que uma das marcas centrais é a complexidade. A aprendizagem não é um efeito linear do ensino ou, pelo menos segundo determinadas concepções, não é assim que a aprendizagem se apresenta. A sala de aula é um espaço extremamente marcado pela diferença, se nós pensamos qualquer coletivo, qualquer grupo é marcado pela diferença. E a diferença, no processo educacional, ela é freqüentemente compreendida como algo a ser evitado, há uma série de procedimentos no sentido de produzir turmas homogêneas, de criar mecanismos para reduzir essa diferença, isso me parece o inverso do movimento mais produtivo. A heterogeneidade, ela potencializa, quanto mais diferentes nós formos, mais nós temos a ensinar e a aprender uns com os outros. Se todos sabemos a mesma coisa, a nossa possibilidade de troca é muito reduzida. Então, a sala de aula, que é constituída por pessoas diferentes, com histórias de vidas diferentes, com culturas diferentes, com modos de viver diferentes, com problemas diferentes, com possibilidades de solução também diferentes, vai sendo um espaço marcado por formas diferentes de aprender, processos diferenciados e também resultados diferenciados. A avaliação, nessa perspectiva, não pode trabalhar a partir de um padrão preestabelecido, porque esse padrão preestabelecido, por princípio, ele já está eliminando alguns, se nós trabalharmos com a idéia de que a diferença é uma das marcas desse processo. Portanto, é preciso que o processo de avaliação se abra para essa heterogeneidade e é nesse sentido que nós temos defendido a idéia da avaliação como uma prática de investigação. Na medida em que eu não posso definir, num primeiro momento, como será o processo e quais serão os seus resultados, mas eu posso atravessar todo esse processo por uma prática investigativa que vá me mostrando como é que ele está se realizando, que múltiplos resultados ele está proporcionando e como é que nós vamos criando mecanismos pedagógicos para potencializar essa diferença que vai emergindo a cada dia na sala de aula, então me parece que compreender esse processo, na perspectiva da complexidade, leva-nos a considerar a heterogeneidade como uma questão fundamental no processo pedagógico. E surge a necessidade de criar instrumentos e procedimentos de avaliação que possam potencializar a heterogeneidade naquilo que ela tem de mais rico e não reduzir a potencionalidade da heterogeneidade, que é o que nós fazemos quando nós queremos que todos entrem no mesmo padrão.

Salto – Como é que você imagina que os projetos político-pedagógicos devem encarar ou devem abordar essa questão da avaliação?
Maria Teresa – Acho que a avaliação é um dos procedimentos necessários à realização do projeto político-pedagógico. Para que nós possamos organizar na escola um projeto político-pedagógico, é preciso conhecer essa escola e aí nós temos uma dimensão de avaliação, avaliar o que essa escola tem feito, como ela tem se proposto, que questões, que problemas, que possibilidades, que soluções, então demanda todo um processo de avaliação. A sua proposição, se é um projeto político-pedagógico, parece-me que é fundamental que seja um projeto democraticamente constituído pelos sujeitos que estão ali interagindo. Então, é preciso que esse projeto também vá prevendo mecanismos de avaliação que possam favorecer o diálogo, a reflexão e a interação entre esses diversos sujeitos, é preciso que haja a interação entre os diversos pontos de vista que eles podem ir trazendo sobre essa escola e sobre a sua dinâmica.

Salto – Maria Teresa, você estava dizendo que o projeto político- pedagógico não pode, não deve sair de uma via que não seja uma escolha democrática entre todos os atores envolvidos ali, no cotidiano da escola.
Maria Teresa – Pois é, é fundamental que os diversos sujeitos e não só os diversos setores — porque aí, me parece que tem uma questão da representação, da representatividade que nem sempre é garantida — então, é preciso que esses diversos pontos de vista, as diversas vozes, esses diversos saberes e culturas que constituem a escola possam dialogar na produção desse projeto político-pedagógico e, ainda, que seja proposto um processo de avaliação compatível com essa dinâmica, compatível com essa diversidade, compatível com essa idéia de que a escola é para todos e que deve ser e que tem que ser de qualidade para todos. Então, essa idéia da avaliação que vai estar sendo um instrumento pensado pelo próprio projeto político-pedagógico, como um instrumento de avaliação do próprio projeto que está sendo proposto. Então a avaliação perpassa toda a elaboração, toda a realização desse projeto e não apenas, como muitas vezes se coloca, acontece ao final de uma determinada etapa ou ao final de um determinado processo. Para que a gente possa ter informações, elementos, questões, ao final, é preciso que a gente vá realizando essa prática, coletando informações, tendo dados durante toda a realização do processo. E aí eu queria só fazer uma pequena observação, porque o diálogo é uma palavra muito bonita, mas o diálogo nem sempre é fácil, sobretudo quando a gente pressupõe a diferença. O diálogo freqüentemente traz consigo o conflito, e essa é uma marca que eu entendo que nós temos que considerar, nesse processo de avaliação reflexivo e dialógico: a existência do conflito, sendo que conflito é algo que, ao ser trabalhado, pode nos ajudar a avançar em alguns elementos do processo que estavam, de certa forma, truncados ou mal elaborados, incorporando efetivamente a diferença, inclusive, aqueles aspectos que num primeiro momento nos parecem negativos, mas que são parte do processo e que devem ser considerados.

Salto – Então, tudo já deve começar de uma avaliação? Num projeto pedagógico, como você disse?
Maria Teresa – Eu acho que a avaliação é parte deste princípio, não só a avaliação, mas o começo do trabalho tem que constar também de processos de avaliação.

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Entrevistas

Maria Claudia Cardoso Ferreira

Maria Claudia Cardoso Ferreira

   Série: Pluralidade Cultural
   Tema: A política de cotas como uma ação afirmativa
   Realizada em: 09/06/2004

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