Segunda e quarta,
TV Escola - 17h
Walter Kohan
Realizada em: 10/8/2011
Atuação: Professor titular da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Obras: KOHAN, Walter. Vida e morte da infância. Entre o humano e o inumano. Educação e Realidade, v. 35, p. 125-138, 2010; KOHAN, Walter; SKLIAR, Carlos; FERRARO, Giuseppe; OLIVEIRA, Paula Ramos de; PRADO JUNIOR, PlÃnio; CORAZZA, Sandra Mara; PAGNI, Pedro A.; GALLO, SÃlvio; GADELHA, Sylvio de Sousa; GRAU, Olga Duhart (Orgs.). Devir-criança da filosofia. Infância da educação. Belo Horizonte: Autêntica, 2010; KOHAN, Walter. Filosofia. O paradoxo de aprender e ensinar. Belo Horizonte: Autêntica, 2009; KOHAN, Walter; XAVIER, Ingrid Müller. Abecedário de Criação Filosófica. Belo Horizonte: Autêntica, 2009; KOHAN, Walter. Infancia y filosofÃa. México: Progreso Editorial, 2009.
Salto – Walter, é um prazer recebê-lo aqui no Salto para o Futuro, e eu vou começar falando sobre um projeto em Caxias, chamado, "A filosofia en-caixa". Como surgiu o projeto?
Walter – O projeto surgiu em 2007, quando fomos fazer oficinas em diversas escolas, para apresentar a proposta, para saber que escola e que professores estariam interessados num projeto de filosofia. A partir daà surgiu, fortemente, um grupo na Escola Joaquim da Silva Peçanha, de professores e da direção da escola. SentÃamos que eles tinham muito entusiasmo, muito interesse, um genuÃno interesse em fazer com que a filosofia entrasse na escola. Então, primeiro começamos com essa escola durante um 1 ano, tivemos apoio da FAPERJ, de um edital de apoio à melhoria da escola pública. E depois foi incorporada uma segunda escola, que é a Pedro Rodrigues, e vários professores, das duas escolas, começaram a participar. Nós somos um projeto que trabalha nas escolas e na universidade, com alunos e professores da escola e com alunos e professores da universidade. A intenção é gerar experiências do pensamento filosófico. Isso significa que propiciamos um espaço onde as pessoas param para pensar no que normalmente não pensam.
Salto – E o projeto tem um nome curioso. Como é que surgiu a história desse nome?
Walter – Essa é a primeira coisa que queremos, que o nome do projeto chame atenção, que não seja fácil de dizer. Porque a filosofia é um pouco isso, ela faz com que paremos para pensar o que não pensamos, para que pronunciemos com mais cuidado as palavras, para que pensemos nos múltiplos sentidos de uma palavra. Em Caxias, a filosofia 'em caixa' num jogo que quer mostrar, por um lado, que a filosofia não é uma coisa para encaixar. Parece muito contraditório, como é que a filosofia vai encaixar? Mas, por outro lado, ela está em Caxias. Se "encaixa" é legal, porque está em Caxias, mas ao mesmo tempo, se encaixar demais perde um pouco esse sentido crÃtico e problematizador que a filosofia tem. É um pouco uma amostragem que nos mantém vivos, de que sempre temos que parar para pensar no próprio nome. Será que está legal? Será que estamos encaixando? Será que não?
Salto – No texto que faz parte da Publicação Eletrônica da série, você faz questão de afirmar que esse projeto não adota uma metodologia especÃfica, porque o objetivo não é fazer a transposição de conteúdos filosóficos, e por isso você e os professores dessa rede estão construindo, juntos, esse trabalho. Como é essa construção?
Walter – É importante não ter uma metodologia pronta, no sentido de que o que nós queremos fazer é um convite para entrar na filosofia. E, quando já temos uma coisa pronta, é muito mais difÃcil para entrar, ou talvez as pessoas não se sintam à vontade. Então, a ideia é que o professor participe dessa construção, que ele gere e encontre a sua própria maneira de se localizar na filosofia. Isso significa que temos alguns princÃpios. Por exemplo: para nós, é importante a pergunta, o problematizar. É importante o diálogo, é importante ler textos, e escutarmos uns aos outros. Nós queremos que isso aconteça, agora, a maneira como isso acontece... Nós ajudamos o professor a encontrar a sua própria forma de se localizar. Vamos à s escolas, e temos uma conversa individual e em grupo, em que professores dizem os problemas que eles sentem, o que eles gostariam de tratar com a turma, os textos que lhes são familiares, que gostam. Porque é importante também que o professor se sinta à vontade com os textos que vai oferecer. Fazemos um planejamento, ou localizado, ou especÃfico.
Salto – Que tipo de textos os professores levam? Você falou diários, textos...
Walter – Olha, são muito diferentes. O mais importante são duas coisas: primeiro, que o texto gere paixão, que o professor se apaixone pelo texto, sinta que ele vai afetar os alunos. E para isso é importante que ele próprio esteja afetado; e segundo, que seja um texto potente, que ajude a pensar, que não feche as questões, que mostre mais de uma possibilidade de pensar uma alternativa. Agora, o texto pode ser em palavras, pode ser em imagens, pode ser uma situação. Ou seja, o texto é algo que merece e precisa ser interpretado. E quanto mais estiver perto da realidade dos alunos e dos professores, melhor.
Salto – Você é argentino, mas já vive no Brasil há algum tempo, e é, portanto, um pesquisador que vem acompanhando a trajetória do ensino de filosofia no paÃs. Como essa área do conhecimento está presente aqui no Brasil, e qual é o nosso cenário diante de outros paÃses da América Latina?
Walter – Interessante, no Brasil, durante muitos anos, depois da ditadura, teve uma luta muito grande para a filosofia voltar ao Ensino Médio, que é o lugar mais clássico onde ela se encontra nas escolas do mundo inteiro. Foi um processo demorado, longo, e recentemente a filosofia ganhou, pela força da Lei, presença efetiva nos currÃculos de Ensino Médio. Uma situação privilegiada em relação a outros paÃses da América Latina e do mundo inteiro. Ou seja, em muitos paÃses há o movimento contrário, uma tendência a retirar a filosofia, reduzir sua carga horária. Enquanto que aqui, felizmente, depois de muito trabalho, a filosofia garantiu sua presença. O problema principal agora é que não basta ter a filosofia. Não é só pelo fato de ela aparecer na grade que se pode resolver muita coisa. O importante é como ela entra na escola. Como é a formação dos professores, quais são os textos disponÃveis, o espaço efetivo que ela tem, e o diálogo que ela pode estabelecer com outras disciplinas. Então, hoje no Brasil existem movimentos intensos, muitos fóruns de professores de filosofia, muitos programas de pós-graduação que já têm linhas de trabalho, muita produção bibliográfica, onde já se tenta consolidar a presença da filosofia, garantir condições para que ela possa efetivamente cumprir seu papel, que é contribuir para tornar a escola mais reflexiva. Propiciar o que a filosofia tem a oferecer com relação ao pensamento.
Salto – Pensando mais especificamente no ensino de filosofia para crianças, que é um dos focos da série, você diz no texto, já citado anteriormente, que "muitos recusam a ideia de que se possa fazer filosofia com crianças justamente a partir de concepções de filosofia muito fechadas e atreladas a imagens também debilitadas da infância". O que está em jogo quando se pensa no ensino de filosofia para crianças?
Walter – Muitas coisas. Mas, basicamente, uma ideia do que é infância, e uma ideia do que é filosofia. Se eu penso, por exemplo, que o ser humano é um ser em desenvolvimento, que começa muito pequenininho, e que seu pensamento pode muito pouco quando ele é uma criança, e pode muito quando ele é um adulto, certamente vou pensar que o que ele pode fazer enquanto criança é bastante pouco. Se, além disso, eu pensar que a filosofia é uma coisa muito sofisticada, muito complexa, que exige um desenvolvimento do pensar muito grande, vai ser impossÃvel que a filosofia e a infância se encontrem. Então, ao contrário, o que eu penso, a ideia com a qual nós trabalhamos é que o ser humano, basicamente, tem sempre a mesma capacidade de pensar. A inteligência humana é uma só. Nós nascemos com uma capacidade de pensar, e o encontro com a filosofia é a ampliação dessa possibilidade, dessa capacidade, para uma efetiva potencialização. A filosofia também não é uma coisa tão sofisticada, tão erudita, que só alguns poucos podem compreender. A filosofia é a coisa mais concreta que tem. Ela lida com as nossas questões mais cotidianas, com os problemas mais existenciais, com o sentido da nossa vida. Se temos essa imagem da filosofia e essa imagem da infância, não há nenhuma razão para inibir a infância do campo filosófico. Ao contrário, é necessário, é importante, porque a filosofia vai ser mais um espaço para que tudo o que uma criança possa fazer com o seu pensamento, ela faça de maneira mais intensa, mais aberta, mais reflexiva.
Salto – Walter, muitos professores tem a ideia de que existem alguns assuntos considerados tabus para se falar com a criança. Que a criança, talvez, não tivesse maturidade para discutir um determinado assunto, ou outro, como por exemplo, vida e morte. O que você diria para esses professores?
Walter – Esse é o mesmo sentido da pergunta anterior. Se subestimarmos a infância, pensarmos que ela não é capaz, sempre pensaremos que nós temos que tutelar o que ela pensa. Mas o que de fato acontece, se ouvirmos a criança, é que ela lida muito mais facilmente com essa questão do que nós. Na infância, a vida e a morte são vividas muito mais claramente, sem tanto preconceito, sem tanto temor. Na infância, estamos mais próximos do inÃcio da vida, portanto, da ausência de vida, de não ter vivido a vida. A vida é uma surpresa. Ausência de vida não é coisa que chame tanto a atenção. Faz parte da vida. Normalmente, o que tendemos a fazer é achar que aquelas coisas que são mais difÃceis para serem pensadas, também são mais difÃceis para a criança e para as pessoas em geral pensarem sobre elas. Mas a prática diz que com a criança tudo isso é muito mais tranquilo, mais divertido.
Salto – Qual a diferença com o trabalho com jovens e adultos, quando se pensa no trabalho com crianças e no trabalho com jovens e adultos?
Walter – Há diferenças, talvez, no sentido de que com crianças é tudo mais limpo, mais tranquilo, menos torto, menos preconceituoso. Nós trabalhamos com crianças e adultos, tanto alunos quanto professores. Trabalhamos com adultos em processo de alfabetização, no horário noturno. E há um trabalho maior, de construção, daquelas coisas que a sociedade, a cultura, a escola não fazem pensar, naturalizaram. Como a filosofia, de alguma forma, é uma tentativa de encontrar o nosso pensamento mais profundo, digamos assim da infância, essa profundidade está mais perto, mais próxima. À medida que vamos crescendo, vamos colocando coisas em torno dela. O trabalho para limpar o pensamento, para chegarmos ao nosso pensamento mais profundo, demora um pouco mais.
Salto – Ainda falando sobre o texto: você diz que "a filosofia não é útil ou instrumental, não é instrumento para a democracia, para a formação de cidadãos crÃticos, bem sucedidos". Qual é então o sentido do ensino de filosofia, em especial na infância?
Walter – Esta é uma distinção bem interessante: "a filosofia não é útil", então, qual é o sentido da filosofia? Porque, à s vezes, confundimos utilidade com sentido. São coisas diferentes. A utilidade é o que a nossa sociedade busca constantemente. Quando fazemos alguma coisa, ela deve ser útil, tem que ter um mérito, tem que servir para alguma coisa concreta, material, e o mais rápido possÃvel.
Salto – Tem até uma pergunta: para o que serve? O tempo inteiro essa pergunta ronda.
Walter – Exatamente. E para o que serve poder perguntar pela utilidade, ou seja, para que serve ir ao cinema? É muito diferente da pergunta: para que serve ir ao banco? Vamos ao banco para pagar uma conta. Se não tivéssemos uma conta para pagar, não irÃamos ao banco. Ou seja, vamos porque existe uma utilidade. Agora, não vamos ao cinema por uma utilidade concreta. Vamos porque isso nos dá um sentido, porque nossa vida se torna diferente, porque nos faz perceber coisas distintas. A filosofia é mais próxima do cinema do que do banco. Nós a fazemos não porque tenhamos um produto concreto e satisfeito, e ficamos tranquilos. É ao contrário. Assim, como quando vamos ao cinema, ficamos pensando no filme depois, e isso tem efeitos que não podemos notar tão claramente. O que fazemos em filosofia é a mesma coisa. Às vezes uma pergunta, um questionamento, uma maneira diferente de pensar têm um efeito em nossa vida, têm um sentido para nossa vida que não percebemos imediatamente.
Salto – Muitos professores da Educação Infantil, e também das séries iniciais do Ensino Fundamental, podem se questionar sobre o que essa proposta exige deles. E também: o que muda na concepção de ensino dos professores e da própria escola, quando se incorpora o ensino de filosofia?
Walter – É importante que se questione, e é difÃcil responder. Porque tem muito a ver com a trajetória de cada um, com a história, com as expectativas. Mas, de uma forma geral, digamos que a filosofia exige uma mudança em relação ao que sabemos, com o que pensamos. Normalmente, na escola estamos preocupados porque queremos que as crianças aprendam alguma coisa, porque queremos transmitir um saber. Pensamos que nós temos esse saber que a criança não tem, e o sentido da presença de um professor, basicamente, é transmitir esse saber que ele tem, e que a criança precisa saber. A filosofia não funciona assim. A filosofia não é tanto um saber, quanto uma relação com o saber. É uma relação que faz problematizar o que sabemos, que faz buscar saber de outra maneira, que faz não ter certeza do que já sabemos, que faz querer ir atrás do que pensávamos que já sabÃamos, e que talvez não seja um saber tão bom. Então, exige uma certa abertura. Exige uma certa coragem. Não tanto para saber coisas novas, mas para se desprender do que já sabemos, e para abrir esse campo do saber a outra relação, a outros modos de relação, a outros saberes que talvez sequer imaginamos. Então, exige muita coisa, não exige pouca coisa. Coragem, abertura, disponibilidade a poder saber e pensar de outra maneira, como se pensa atualmente.