Salto para o Futuro

Segunda e quarta,
TV Escola - 18h

Entrevistas

Cynthia Paes de Carvalho

Realizada em: 22/10/2010

Atuação: Professora assistente do Departamento de Educação da PUC-Rio na área de sociologia e política da educação. Experiência profissional na área social, particularmente em educação, atuando também como consultora nas áreas de pesquisa, avaliação de projetos e políticas públicas, planejamento, gestão e assessoria pedagógica para instituições sociais públicas e privadas. Pesquisadora do SOCED (Grupo de Pesquisas em Sociologia da Educação da PUC-Rio desde 1999).

Obras: PAES DE CARVALHO, Cynthia; BONAMINO, Alicia Catalano; KAPPEL, Maria Dolores Bombardelli. Planejamento Estratégico em Secretarias Municipais de Educação e Resultados Educacionais. In: Congressos Íero-Luso-Brasileiro de Política e Administração da Educação, 2010, Elvas-PT, Cáceres e Mérida/ES. Congressos 2010 Íbero-Luso-Brasileiros - Cadernos ANPAE No.9, 2010; PAES DE CARVALHO, Cynthia. Contribuições para a análise da gestão das secretarias de educação. In: 2a. Reunião Anual da ANPED, 2006, Caxambu. Anais da 29a. Reunião Anual da ANPED, 2006; PAES DE CARVALHO, Cynthia. Jovens fora da escola: estudo sobre jovens e adultos entre 15 e 25 anos fora da escola, a partir de dados da pesquisa sobre padrões de vida - PPV/IBGE - 1996/1997. In: 23a. Reunião Anual da ANPED, 2000, Caxambu. Anais da 23a. Reunião Anual da Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Educação, 2000; PAES DE CARVALHO, Cynthia. A educação na rua e a escola. Revista Proposta, Rio de Janeiro, n. 52, p. 29-31, 1992.

Vulnerabilidade social e Educação

Salto – Nos últimos anos, foram implementadas algumas políticas públicas, com o objetivo de promover a integração entre os jovens em situação de vulnerabilidade social e a escola. Quais os resultados alcançados?
Cynthia Paes de Carvalho – Houve um avanço geral da escolarização no país. Hoje, 97% das crianças e jovens em idade escolar estão nas escolas. Isso, por si só, já é um avanço. Há 30 anos, tínhamos uma quantidade expressiva de crianças e jovens que sequer conseguiam ingressar no sistema escolar. Além das políticas dos últimos anos, isso já é uma marca que vem acontecendo há algum tempo. As políticas que estão sendo feitas, particularmente o bolsa-família, têm tido uma importância grande, no sentido de que têm exigido, como condicionalidade, a questão da frequência à escola. Logicamente, a frequência das crianças à escola é uma forma de garantir, no caso das famílias, a continuidade do pagamento da bolsa, mas é uma forma de garantir uma perspectiva de inclusão social mais sustentável, na medida em que a escolarização pode contribuir para essa inclusão, ao longo prazo, da criança. Nesse sentido, podemos dizer que realmente essas políticas sociais, incrementadas especialmente nos últimos dois governos federais, têm contribuído bastante para a inclusão social dessas crianças, e para a inclusão escolar.

Salto – Por que é importante que os educadores pensem sobre a relação entre pobreza e educação?
Cynthia Paes de Carvalho – É importante que os educadores reflitam sobre a realidade social do país. Nós somos um país rico em riquezas naturais e em potencial, mas há uma desigualdade profunda. Eu diria que, mais do que refletir sobre a pobreza, necessariamente, trata-se de refletir sobre a desigualdade que marca a nossa história, desde quase sempre. É muito importante que o professor, o educador, o gestor da escola, pensem nesse contexto, conheçam esse contexto de desigualdade, no qual o seu trabalho está inserido. Porque é com essa criança, vinda desse contexto de desigualdade, de profundas desigualdades que marcam a sociedade como um todo, que ele vai trabalhar. É quase que um senso comum que a escola pública foi boa. "Antigamente tínhamos uma escola pública de qualidade, e hoje a escola pública teria perdido essa qualidade". Isso é uma falácia. Na verdade, a escola pública dita de qualidade de antigamente, na década de 50, início da década de 60, era uma escola pública que atendia a poucas crianças. E a grande maioria delas de origem da classe média. Então, o que houve depois disso foi uma efetiva democratização da educação pública, e camadas sociais que nunca puderam acessar a escola passaram a fazer parte da escola. E os educadores, os professores, não foram preparados para essa nova realidade. Porque esses jovens, essas crianças, as famílias deles também, trazem para a escola outro tipo de desafio, outro tipo de realidade. Muito mais vulnerável, do ponto de vista socioeconômico, com outros valores, do ponto de vista cultural, com expectativas e problemas, no seu entorno, vivendo em contextos, muitas vezes, de grande violência, além da pobreza propriamente dita, e tudo isso é um desafio para a escola. Então, se a escola vem pensando numa criança branca, de classe média, e se o professor vem esperando essa criança e encontra uma criança negra, da favela, que vem de um contexto de violência, se não está preparado para pensar que essa é a realidade, na verdade, do país, da grande maioria da população, obviamente tem um choque, uma rejeição, e isso acaba contribuindo para o insucesso da criança, e muitas vezes para a evasão escolar também. Na verdade, essa evasão escolar e esse insucesso agravam e reproduzem o quadro de desigualdade. Pesquisas em educação mostram que um fator muito importante em relação ao sucesso das crianças na escola é exatamente a expectativa do professor. Na medida em que o professor espera pouco dessa criança, que ele já acredita de antemão que ela não irá muito longe socialmente, nem do ponto de vista escolar, ele também ensina pouco, dá menos atenção, e aí virá uma profecia autorrealizada. Essa criança se evade, ou ela não tem sucesso, ou não vai muito longe na sua escolarização. Isso reproduz a desigualdade que temos nessa sociedade, reforça.

Salto – De que forma a vulnerabilidade social pode influenciar no rendimento escolar e na aprendizagem do aluno?
Cynthia Paes de Carvalho – Todas as pesquisas em educação, desde a década de 60, internacionais e nacionais também, têm mostrado reiteradamente a importância da condição socioeconômica e cultural das famílias, da origem social dessas crianças em relação ao seu desempenho escolar. Essa é uma condição que tem influenciado. Todas as pesquisas em sociologia da educação dizem isso já há muito tempo. Esse é um fator muito importante para o sucesso. O que acontece é um círculo vicioso. A escola, que se pensou em determinado momento que seria a solução para a desigualdade, que ela igualaria essas crianças que vêm de contextos desiguais, se revelou, em outras circunstâncias, uma confirmadora dessa desigualdade. Então, a criança que vem de uma origem social desprivilegiada, ela vai ter uma atenção ruim na escola, e vai ter confirmado esse desprivilégio depois: "olha, ela também não foi para frente porque não aprendeu". E ela não aprendeu, às vezes, porque não entendeu a linguagem da escola, porque não entendeu o contexto cultural da escola, e aquele currículo que foi feito de uma maneira que não considera os seus valores, a sua cultura.

Salto – Nos últimos anos foram implementadas algumas políticas públicas, com o objetivo de promover a integração entre os jovens em situação de vulnerabilidade social e a escola. Quais os resultados alcançados? Com a sua experiência, o que você pôde observar?
Cynthia Paes de Carvalho – Antes de qualquer coisa, eu preciso dizer que essas políticas vieram dentro de um contexto, que é o de universalização do ensino fundamental. Então, o que acontece? Têm hoje muito mais crianças e jovens incluídos no sistema escolar, do que houve em décadas passadas. Hoje em dia, praticamente, 100% delas estão nas escolas. Essas políticas, como o Bolsa Família, por exemplo, elas vieram reforçar essa inclusão escolar, na medida em que exigem condicionalidades. Ou seja, a família, para continuar recebendo aquele benefício, precisa comprovar a frequência da criança à  escola. Nesse sentido, elas reforçam a inclusão escolar, mas é um processo que já vinha acontecendo. Então, reforça, aprofunda, e nesse sentido tem impacto também no processo de escolarização em geral da população.

Salto – De que forma os educadores devem refletir sobre a relação entre pobreza e educação?
Cynthia Paes de Carvalho – Eu diria que para refletir sobre pobreza e educação, é preciso pensar também em desigualdade e educação. Por um lado, temos uma quantidade expressiva de pesquisas no campo da educação, tanto internacionais quanto nacionais, que mostram a importância da origem social da criança para o seu sucesso, o seu rendimento escolar. A origem social tem um impacto expressivo no rendimento escolar de qualquer criança. Agora, nós vivemos no Brasil em um contexto de extrema desigualdade. Somos um dos países mais desiguais do mundo. Isso traz para a educação, para a escola, para o professor, o desafio de compreender como é que o seu trabalho profissional pode colaborar para diminuir essa desigualdade do país. Nesse sentido, qualquer educador, qualquer professor, qualquer pessoa que trabalhe com educação, eu diria até qualquer pessoa que trabalhe em área pública, tem que estar, tem que se sentir desafiada pela questão da desigualdade. Isso é uma questão ética, inclusive. Devemos nos sentir desafiados no sentido de combater essa desigualdade. Se a origem social já pesava, a origem social que permanece e se reproduz como desigualdade nesse país é que importa combater. Desse ponto de vista, qualquer educador, mesmo que seja por uma questão ética, tem que pensar em como, no seu trabalho, no processo de escolarização, ele pode ajudar a combater a desigualdade.

Salto – De que forma a vulnerabilidade social pode influenciar o rendimento escolar e a aprendizagem do aluno?
Cynthia Paes de Carvalho – Essa também é uma questão para se pensar. A democratização e a ampliação do acesso à escola no Brasil, ela é relativamente recente em relação a outros países da América Latina e do mundo mais desenvolvido. Havia, supostamente, uma escola pública de qualidade, na década de 50 e início da década de 60, que na verdade atendia apenas a uma parcela da população, basicamente das camadas médias, camadas médio-baixas. Na memória das pessoas, havia essa escola de qualidade, que na verdade era uma escola para poucos. O professor vinha da mesma origem social, os alunos da mesma origem social, e havia uma situação de horizontalidade na relação Educador/Educando dentro do contexto escolar. Isso mudou. A partir da democratização, da ampliação do acesso, a maioria dos alunos passa a ser de outra origem social e, ainda mais recentemente, eles são obrigados, pelas condicionalidades, a ficar na escola. Isso traz um novo desafio ao professor, porque ele está se vendo frente a frente com um aluno, com uma família diferente da imagem que ele tinha da escola de qualidade, que era mais parecida com ele, etc. Uma família diferente, cujos pais, muitas vezes, ainda são analfabetos, normalmente têm muito menos escolaridade que os seus filhos. É a primeira geração que vai ter uma escolarização um pouco maior naquela família. Então, temos um contexto, na origem social dessas crianças, muito diferente de uma família de classe média, que tem várias gerações escolarizadas. A intimidade com o sistema escolar, com o próprio 'modus operandi' da escola é muito diferente de uma criança que vem de uma família em que o pai, a mãe, os avós estiveram na escola, e já têm essa relação com a escola, do que uma família que não tem essa relação com a escola, que se evadiu cedo, e muitas vezes os pais são analfabetos. Isso faz diferença. É uma criança diferente que vem para a escola, uma criança que não tem o mesmo comportamento, é uma família que não necessariamente sabe lidar com essa escola. Imaginemos que fosse preciso ensinar grego aos nossos filhos, porque a escola está exigindo, o que diríamos? "Eu não sei grego, como posso ensinar? Como posso ajudar meu filho na escolarização?". É um pouco essa a situação. A escola, muitas vezes, vai trazer conteúdos, e uma forma de lidar com eles, que são como o grego, para essa família. Essa família não conhece esses códigos. Não por deficiência dela, porque ela não tem culpa de não ter tido acesso à escola, e ela não pode ser culpabilizada. Mas ela não tem a mesma condição de apoiar a criança na relação com a escola, como uma família de classe média talvez tivesse décadas atrás. Isso é importante também dizer. Na verdade, mesmo as famílias de classe média, e de classe média alta, hoje em dia, fazem um apoio relativo à escola. Porque, na verdade, elas também não têm mais esse tempo. As pessoas trabalham cada vez mais, as mulheres estão cada vez mais inseridas no mercado de trabalho, consequentemente, a atenção que elas podem dar aos seus filhos, mesmo tendo uma condição socioeconômica melhor, é diferente de tempos atrás, em que a mulher estava o tempo todo dentro de casa, e poderia dar essa atenção, e a mulher também era escolarizada. Então, além da condição social da família, que é mais vulnerável, ela não entende os códigos da escola, muitas vezes. Sente-se até mesmo ameaçada, desvalorizada por esses códigos – a mãe ou o pai que não sabem falar o português correto, frente a uma escola que fala corretamente – e ao mesmo tempo há a condição de trabalho, quando essa situação existe. Vamos supor em uma família que todos estejam trabalhando, porque quanto mais vulnerável socialmente, mais difícil é para essa família se manter. Imaginemos uma mãe que sai de casa às 4h da manhã, e vai voltar muito tarde da noite. A que horas ela vai poder olhar o dever de casa com a criança, que é muitas vezes o que a escola vai pedir? Que condição ela vai ter? Agora, hoje em dia, mesmo a mulher de classe média, uma professora universitária como eu, muitas vezes tem pouca condição de fazer isso, porque trabalhamos muito mais. Só que a criança, meu filho, sempre ouviu um português correto em casa, tem um acesso à cultura que aquela criança de meio social mais desfavorecido não tem.

Salto – Quais os principais desafios desse processo? Estamos falando de uma série de dificuldades envolvendo a família, mas que questões devem ser pensadas como prioridade, no momento em que um aluno em situação de vulnerabilidade social tem acesso à escola?
Cynthia Paes de Carvalho – Tem duas coisas principais para a escola, e para o professor, mas também para o gestor pensar. A primeira coisa é que para essa criança em situação de vulnerabilidade social, a escola, provavelmente, é a única chance de acesso à cultura. Cultura em sentido mais amplo. A cultura dominante na sociedade, os códigos de escrita e leitura dominantes, que vão ser necessários na hora de conseguir um emprego, ou uma colocação melhor no mercado de trabalho, ou uma chance qualquer de mobilidade social, nesse sentido. Não é que eles não tenham cultura, eles têm, mas muitas vezes não têm acesso a esses códigos. A escola pode ser a única possibilidade que essa criança tem. Ao contrário de uma criança de classe média, que tem acesso a esses códigos no seu cotidiano - tem livros em casa, pode ir ao cinema no final de semana com os pais, eventualmente ao museu, a uma livraria, que tem acesso a tudo isso. A criança em situação de vulnerabilidade não tem. A primeira coisa a pensar é que a responsabilidade da escola é muito maior. Essa é a primeira coisa, e é uma questão ética, política, para pensar como profissional, seja diretor, coordenador pedagógico, professor, não importa. A segunda coisa é por que o professor, o educador, precisa pensar a questão da desigualdade e da pobreza e a relação disso com a educação? Precisa, porque ele precisa conhecer o seu aluno. Como eu posso ensinar a alguém que eu não conheço, que eu não reconheço como pessoa, como cultura, como situação? Isso é um elemento fundamental. Se eu vou conduzir alguém, eu preciso saber de onde e para onde eu estou conduzindo. Educar tem sempre essa ideia de condução, da pedagogia. Você pega um pouco a criança pela mão em direção ao conhecimento, à cultura, etc. É importante pensar: que criança é essa? Que família é essa? Conhecendo melhor, isso vai me dar elementos para poder fazer um trabalho mais eficiente. Da mesma maneira como qualquer profissional precisa conhecer onde ele vai atuar, para atuar de forma mais eficaz, o professor e a escola precisam conhecer as famílias dos seus alunos, a realidade dos seus alunos, para poderem ser mais eficazes. E sabendo que a atuação deles será absolutamente fundamental para o futuro daquela criança. Então, eles têm uma responsabilidade social única, muito especial realmente.

Salto – Você tem experiência de 15 anos de ensino na rede pública e privada. Com a sua experiência, qual o papel da escola, como ela deve se preparar para receber esses alunos? É preciso repensar algumas questões como o currículo, e a própria organização da escola?
Cynthia Paes de Carvalho – A escola tem que estar, primeiro de tudo, ciente da sua responsabilidade social, e ética, e aberta a essa realidade. É um olhar em volta. Às vezes falta à escola a condição até de olhar em volta. É importante pensar isso. Achamos, às vezes, que a escola é capaz de tudo. Ela é capaz, mas é um trabalho difícil. Porque muitas vezes remamos contra a maré... A própria condição de trabalho na escola: é um professor que já vem cansado, que está mal remunerado, é um diretor que está sobrecarregado de tarefas, com pouca estrutura de apoio, diferente das escolas privadas, por exemplo. Na escola pública, são pouquíssimas pessoas que fazem a parte administrativa e, no entanto, as escolas têm que prestar contas, têm contador, CNPJ,  têm que fazer uma quantidade enorme de tarefas administrativas, com pouquíssima gente, além do trabalho pedagógico. É um trabalho muito difícil e exigente. Exige muito compromisso, e exige mais condições. Um dos problemas é que as escolas têm poucas condições de fazer isso. Agora, a escola precisa também, mesmo tendo condições, de estar aberta. Aberta à sua comunidade, a quem são os seus alunos, ter ciência de que não temos o aluno ideal, temos o aluno que temos. Precisamos atender a esse aluno, esse que nos foi dado. Estando aqui, ele é minha responsabilidade, é com ele que tenho que lidar. Preciso ir atrás, compreender que realidade é essa, olhar em volta. Já vimos em algumas pesquisas, até da UNESCO, sobre essa relação escola/família, algumas experiências muito interessantes de professores buscando conhecer as famílias, indo até a casa das famílias para entrevistar, para conhecer a situação, e se dar conta de coisas que eles não entendiam na atitude do aluno, e que, na verdade, era importante conhecer o contexto social. Conhecer essas famílias sem preconceitos, procurando acolhê-las também, e entendendo que elas também são fruto da mesma sociedade em que estamos todos inseridos, isso é fundamental. Esse olhar generoso, e curioso, sobretudo, em relação ao contexto onde está a escola, e sobre as famílias também, que precisa ser combinado com isso que eu já falei da responsabilidade social da escola.

Salto – Como é possível envolver essas famílias, as famílias desses alunos, no processo de aprendizagem? Que obstáculos as próprias famílias precisam superar para participar de maneira ativa na educação dos seus filhos?
Cynthia Paes de Carvalho – A experiência que temos, tanto como professora quanto como pesquisadora, tem mostrado que, ao contrário do que o senso comum diz, as famílias se interessam, se preocupam com a escolarização dos filhos, estão comprometidas com isso também. É importante não perder isso de vista. Na medida em que a família matricula o filho, ela está delegando uma certa responsabilidade, mas ela não deixa de estar partilhando essa responsabilidade. Claro que há famílias e famílias, quanto maior a vulnerabilidade, mais difícil pode ser esse processo, mas, de uma maneira geral, elas estão interessadas, e estão procurando. Só que muitas vezes para chegar à escola, conversar com a escola, passa-se por desafios que nem sempre são bem avaliados pelos educadores, pelos professores. O primeiro deles é a linguagem. As pessoas vêm de uma família que tem uma maneira de falar, uma maneira de se expressar, muitas vezes, diferente da maneira usual dos agentes escolares. Isso já causa uma certa dificuldade nessa relação. Além disso, temos professores e outros agentes escolares olhando a família com preconceito, e essa disposição torna difícil acolher o diferente. As dificuldades estão por aí. Se conseguimos, o professor, a escola, o gestor, vencer essa barreira do preconceito, e aceitar as famílias como elas são, e convidá-las, e ouvi-las, sobretudo, este é um primeiro passo na direção de resolver o problema. Muitas vezes, achamos que a família tem que fazer o que a escola deveria fazer. Pai tem que cobrar o dever de casa. Como é que o pai cobra o dever de casa se ele mal sabe ler, se ele muitas vezes não consegue compreender por que está sendo pedida determinada coisa no dever de casa? Na verdade, a escola poderia pedir menos, como eu já ouvi de uma diretora: "eu acho que o pai tem que saber a série em que o filho está". Veja como é simples: saber a série em que o filho está, e de vez em quando, olhar se o caderno tem alguma coisa. Porque isso é o mínimo que o pai precisa fazer e que é importante que o pai e a mãe façam, garantir que a criança esteja presente na escola, ir quando a escola chamar, etc. O resto é com a escola. A qualidade daquele dever, se a criança fez certo ou errado, não é a mãe que tem que ensinar como a criança responde o dever, isso não é papel da mãe, é da professora. Em qualquer situação. Para isso a escola, supostamente, tem uma competência técnica específica. Do contrário, todo mundo poderia ensinar, não precisava da escola. Se a família vai fazer o papel de ensinar a criança a fazer o dever de casa, para que a criança vai para escola, então? Quem tem que fazer esse papel é o professor. E não supor que tenha um outro professor em casa esperando essa criança. Acho que passa um pouco por aí.

Salto – Muitos dos estudantes que são incluídos nos programas de complementação de renda têm receio de sofrer preconceito por parte de outros colegas. Que ações a escola pode desenvolver para acolher essas crianças e amenizar situações como essa?
Cynthia Paes de Carvalho – Eu acho que quem deve assumir essa relação entre os colegas, mais uma vez, é a direção, a coordenação. São os agentes escolares e os professores, porque são eles que têm que estar olhando. E o  principal é pensar que toda e qualquer criança, inclusive, mais especialmente aquelas que estão em situação de vulnerabilidade social, têm direito de aprender, têm o direito de estar na escola, e não apenas estar, mas estar aprendendo. E é do ponto de vista do direito que a questão tem que ser colocada. Não como "coitadinho", e ter "peninha", e sim como uma maneira de acolher. Não. Ele tem o direito de estar ali, esse direito foi conquistado por toda a sociedade. Ele tem o direito de estar ali aprendendo, de estar bem, e de ser respeitado pelos outros. Aí a conversa muda de figura. Eu não tenho pena do coleguinha do Bolsa Família, porque eu reconheço nele um sujeito de direitos, que tem tanto direito quanto eu de estar aqui, de ser bem tratado, de estar aprendendo. São os adultos que pautam essa relação. Claro que pode haver problemas, mas eu diria que pode haver problemas porque eles vêm de uma situação de vulnerabilidade, pode haver problemas porque eles têm uma relação com o tráfico, os mais velhos, pode haver todo tipo de problemas. Não necessariamente é o fato de ser uma criança, por exemplo, de uma família que recebe o Bolsa Família que determina isso. Você pode ter a relação ao contrário. É o menino que tem uma relação com o tráfico, por exemplo, que é um "aviãozinho", e coloca isso como uma situação de poder em relação aos colegas na escola. É uma violência ao contrário, que o próprio menino está trazendo. Quem é que tem que pautar a mudança disso? São os adultos. Não tem que deixar as crianças resolverem. Por isso eles são crianças e nós adultos. A responsabilidade é nossa. Nós é que temos que assumir a responsabilidade e pautar: aqui não é espaço para isso, aqui é um espaço onde todos são sujeitos de direito. Não me importa de onde vem, nem porque está aqui. Essa consciência do direito, da igualdade fundamental de qualquer criança é que tem que ser pautada pelos adultos, em favor, justamente, de uma convivência pacífica. Outro detalhe que acho importante ter em conta, isso na minha experiência na década de 80, sobretudo, eu trabalhei muito tempo com meninos de rua, e uma das coisas que víamos é que numa situação extrema, como é o caso dos meninos de rua, de vulnerabilidade social, e de risco de vida, é que uma das coisas que acontecem é que a linguagem é pouco desenvolvida. Na medida em que a linguagem, a argumentação – que também pode ser muito violenta – é pouco desenvolvida, facilmente se recai para a violência física. Ora, o sistema escolar é um espaço de desenvolver a argumentação, a conversa. Nessa medida, se ele faz bem o seu papel, essa criança vai aprendendo outras maneiras de trabalhar, inclusive, as situações de violência, que ela pode questionar. Se eu não consigo discutir uma situação de agressão, eu vou agredir de volta. Se eu transformo isso numa conversa, vamos para o outro extremo, que é uma coisa de civilização. O que chamamos de civilidade: é uma relação conversada, negociada, discutida. São discutidos os limites, os direitos, os deveres. O contrário disso é a violência, é a agressão pura e simples. Brutal, sem explicação. É importante também ter em conta que a escola pode ser, nem sempre é, infelizmente, mas pode ser esse espaço de desenvolvimento da argumentação, da linguagem, da resolução pacífica dos conflitos, argumentados, discutidos entre todos. Pensando em todos como sujeitos de direito, com iguais direitos e deveres.

Salto – Obrigada pela entrevista, Cynthia.
Cynthia Paes de Carvalho – Obrigada a vocês pela oportunidade. É um tema que me fascina, e cada vez mais é importante e atual insistirmos na responsabilidade da escola, especialmente da escola pública, do professor, e dos agentes escolares de uma maneira geral, para com a diminuição da desigualdade entre nós, e para a construção de uma sociedade mais justa, mais humana, menos violenta. 

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Entrevistas

Maria Claudia Cardoso Ferreira

Maria Claudia Cardoso Ferreira

   Série: Pluralidade Cultural
   Tema: A política de cotas como uma ação afirmativa
   Realizada em: 09/06/2004

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