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Rádio MEC homenageia os setenta anos de Dalila Villa Nova

Publicado em 10 de julho de 2009

Para os amantes da música, principalmente do samba, uma notícia já está provocando saudades.

No próximo 11 de julho, sábado, ao meio dia, Dalila Villa Nova conduz pela última vez o programa A Fina Flor do Samba da Rádio MEC.

Após vinte e cinco anos dedicados à rádio, Dalila vai se aposentar. Não pense que é por vontade própria. Pois não é. No dia 15, ela completa setenta anos e, como previsto na constituição brasileira, deve solicitar sua aposentadoria compulsória - ou expulsória, como ela mesma chama.

Entre as homenagens organizadas para sua despedida, o programa Ao Vivo entre Amigos que vai ao ar no dia 15, às 17h, preparou algumas surpresas que só serão reveladas na hora e também convidou familiares e companheiros de estrada de Dalila. Ito Melodia, Alex Ribeiro, Tião da Mocidade, Misael da Hora e Monarco são alguns nomes que estarão presentes.

Ito Melodia, da União da Ilha, preparou uma homenagem muito especial. Presenteia a amiga cantando o enredo de 1980, 'Bom, Bonito e Barato', que marcou o início da carreira de Dalia como divulgadora. Outra música que deixou marcas em sua história foi 'Nada Além', de Custódio Mesquita e Mário Lago. A canção será executada pelo pianista Misael da Hora. Dalila costumava cantá-la aos seus filhos.

Mas Dalila não pretende parar e já tem novos planos. Talvez ela visite as feijoadas realizadas nas quadras das escolas de samba, para um novo programa na Rádio Nacional. Mas, por enquanto, é só especulação. A Rádio Nacional está em obras e, caso o projeto se concretize, a estreia poderá ser em setembro. Ainda no âmbito das especulações, o nome seria Dalila nas Quadras. Ao comentar o nome do futuro programa, retorceu a cara, fez careta e disse que sua “modéstia não é compatível com isso”. “Eu sou apenas o veículo, a vedete é a rádio”, acrescentou.

Pura modéstia mesmo, já que foi diplomada como patrimônio do samba pela Estação Primeira de Mangueira. "Um diploma lindo”, observa. Depois disso, ela não passou nenhuma semana sem receber duas ou três homenagens. Quando não era troféu, era diploma, galhardete ou placa de prata. Em sua casa de Teresópolis, fez uma sala de troféus e pretende doá-los a Rádio MEC. Entre eles, o Momo de Ouro que, segundo Dalila, nenhum divulgador recebeu, apenas ela. “Só não fiquei rica, mas ganhei muitas homenagens (...) se galhardetes, faixas e placas fossem dinheiro, eu tinha juntado uma boa grana!”, brinca. Mas, diz sentir-se recompensada e até usou a célebre citação de Júlio César: vim, vi e venci.

Dalila encarou as dificuldades da vida com muita luta. Muitas vezes, quando ia visitar a Rádio Nacional para divulgar as escolas de samba, dormia sob o piano porque não tinha tempo de voltar para casa. Na época em que morou na Ilha do Governador, não havia ônibus durante toda a noite. “Eu fazia tudo, tudo e chegava à Rádio Nacional. Entrava debaixo do piano, que tinha uma capa preta e ficava escuro. Eles gostavam de mim, me arranjavam um bocado de jornal que eu fazia de travesseiro e eu deitava”. Depois de um tempo, com a intimidade que só a amizade proporciona, começaram as implicâncias. Dalila conta que a amarravam na perna do piano. “Mas, era tudo na base do respeito, da amizade. Pra mim foram anos dourados”, diz.

Enfrentou a separação do marido com dois filhos. Deparou com a preocupação da família, principalmente do irmão mais velho, quando frequentava as quadras de samba. Dalila nunca bebeu nada alcoólico. Nunca teve casos amorosos. Sempre soube se impor. “Todo lugar que eu chego me respeitam, não tem uma escola que eu frequente que eu chegue sem avisar e eles não me conduzam a um camarote. Então, isso aí, pra mim, é uma prova de respeito”.

Dalila conta que o momento mais emocionante de sua vida aconteceu no carnaval de 1980. Ela divulgava a União da Ilha e, como percorria muito as emissoras de rádio, era conhecida por todos. Assim que chegou à Marquês de Sapucaí vieram tantos repórteres ao seu encontro, que todo mundo se levantou pra ver quem era. “Aquele momento ali foi emocionante”, confessa orgulhosa. Seu segundo grande momento emocionante foram as visitas, todas, que Jamelão fez ao seu programa A Fina Flor do Samba. “Era chamar e ele vinha. Era convidar, ele vinha. Jamelão é uma saudade que eu sinto dentro do coração. Ele e o Dr. Franco que era compositor da União da Ilha. São duas grandes saudades, embora tenha outras também. Mas esses dois marcaram. Na vida e na saudade”.

Samba + Rádio = Dalila

Aos 11 anos de idade, Dalila Vila Nova estreava na antiga Rádio Guanabara - hoje, Bandeirantes. O programa era A Voz da Criança Espiritualista, sobre educação espiritual infantil. Depois de um ano na Rádio Guanabara, o maestro e diretor Laércio Alves escutou Dalila de sua casa e, no domingo seguinte, disse a ela: “Estude! Que você será uma grande comunicadora”.

Waldeck Magalhães, considerado um dos maiores locutores de rádio da época, ligou um dia para a rádio e falou com o maestro Laércio Alves que deveria aproveitá-la. Assim, Dalila começou a estudar e a preparar sua dicção. Aos 17 anos foi para a Rádio Mayrink Veiga e saiu de lá aos 19.

De família humilde, Dalila morava em Cavalcante, um bairro longe do centro do Rio de Janeiro. Em 1959, antes de completar dezenove anos, organizou o primeiro grande bloco de carnaval de Cavalcante. Lá, existiam duas vilas: a Vila dos Bancários e a Vila dos Marítimos, e uma rixa entre elas. A Vila dos Bancários não suportava samba e era considerada uma vila de esnobes. Dalila, morava na Vila dos Marítimos e ali fundou o bloco 'Unidos da Vila dos Marítimos'. Durou somente nove meses por conta da rixa que não deixava o bloco ensaiar.

Mas Dalila, sempre a frente do seu tempo, acabou se tornando presidente de um clube social esportivo: a Associação Marítima Atlética Recreativa, AMAR, que ficava em seu bairro. “Fui a primeira mulher presidente, dito pela TV Excelsior, que fez o levantamento. É um dos mais bonitos clubes do subúrbio”, garante. Dalila esteve lá recentemente para cortar a fita da reinauguração.

Voltando ao passado, foi nessa época que começou a namorar, casou, teve dois filhos e parou com tudo. Mais ou menos tudo.

Além de locutora de rádio, presidente de bloco carnavalesco e de clube esportivo, Dalila foi considerada a melhor divulgadora de escolas de samba do Rio de Janeiro e do Brasil. Convidada em 79 para ser diretora da União da Ilha do Governador, percorria as emissoras de rádio para promover a escola,se tornando conhecida de todos. . Foi divulgadora de várias escolas de samba. Da União da Ilha, foi para o Império Serrano, Mocidade, Beija-flor, Grande Rio, Império da Tijuca,

E foi assim que Dalila voltou ao microfone.

Em 1985, foi convidada por Adelzon Alves e Allan Lima para fazer o Batuque, Pagode e Partido na Rádio MEC. Com a chegada de uma nova direção, que dizia não reconhecê-la como radialista, o programa saiu do ar. Os ouvintes enviaram cartas para os jornais e para a Rádio, houve até abaixo assinado, mas de nada adiantou. Dalila só recuperou seu posto de comunicadora do samba com a ajuda de um ex-diretor da rádio, que gostava muito de seu programa.

Em novo horário, Domingo no Samba começava às 9h e ia até às 11 da manhã, aos domingos. Mas, logo Dalila reconquistou seu espaço de sábado e o programa foi, enfim, batizado de A Fina Flor do Samba, um ponto de encontro entre os sambistas. Puxadores, compositores e nomes como Neguinho da Beija-Flor, Luiz Vieira, Dominguinhos do Estácio, Jorge Aragão, Jackson Martins, entre tantos outros, foram frequentadores do estúdio comandado por ela.