Reportagem Especial

Nas ondas da Rádio Nacional para todo o Brasil

Publicada em 26 de junho de 2009


Paulo Gracindo (de perfil) e Luiz Gonzaga (atrás do microfone) no auditório da Rádio Nacional


Perto de completar 74 anos de idade, a Rádio Nacional do Rio de Janeiro se mistura com a história do Brasil. Se não bastasse o rico acervo cultural, a emissora é privilegiada: fica no coração da Praça Mauá, onde os governos estadual e federal vão desenvolver um megaprojeto de revitalização, que inclui a zona portuária. A rádio ocupa três dos 22 andares do edifício A NOITE, o primeiro "arranha-céu" da América Latina, que também passará por uma ampla reforma, pois já apresenta sinais dos seus 81 anos.

Ali no alto, com vista panorâmica da cidade, é que a Rádio Nacional continua escrevendo sua história e se adaptando aos novos tempos. Um dos diversos veículos da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), a Rádio Nacional nasceu em 1936, usufruindo dos bons ventos da economia. Naquele período, o país atraía investimentos estrangeiros e empresas multinacionais que traziam equipamentos de última geração. O ex-presidente Getúlio Vargas a transformou na rádio oficial do Governo brasileiro.

Ao longo de sua vida, a Rádio Nacional serviu de palco para jornalistas e diversos artistas que, em suas salas e auditórios começaram suas carreiras. Entre eles, os atores Paulo Gracindo e Mario Lago e cantores como Angela Maria, Cauby Peixoto, Emilinha Borba e Marlene. E tantos outros.


A Rádio Nacional ocupa os três últimos andares do edifício 'A Noite' na Praça Mauá

Um pouca da história

A Rádio Nacional se tornou líder de audiência desde a sua fundação. Manteve-se no topo até o aparecimento da TV, que passou a controlar os novos rumos da comunicação. Ainda no ano de sua estreia, a rádio levou ao ar as primeiras cenas de radioteatro intercaladas com números musicais. Em 1938, foi criada a Voz do Brasil.

Já no ano de 1941, a Rádio Nacional estreou a primeira radionovela do país, chamada "Em busca da Felicidade". Em 42, inaugurou a primeira emissora de ondas curtas, o que deu a ela um novo status, elevando os programas a uma dimensão nacional. Ficou conhecida como "A escola do Rádio", o que por si só dá o tamanho de sua importância histórica.

A rádio também “fabricava” programas de humor como: “Balança mas não cai” com Paulo Gracindo, Brandão Filho, Walter D’Ávila, entre outros. Sem contar o “PRK-30”, que simulava uma emissora clandestina que invadia a freqüência da Rádio Nacional e parodiava outros programas - até mesmo da própria rádio - além de propagandas, cantores e músicas.

A Nacional foi pioneira, ainda, no radiojornalismo. Em 1941, durante a II Guerra Mundial, criou o Repórter Esso. Ele foi elaborado para noticiar a guerra sob a visão dos aliados e acabou criando um padrão inédito de qualidade no radiojornalismo brasileiro que, até então, limitava-se a ler no ar as notícias dos jornais impressos.

O Repórter Esso estreou um modo austero e preciso de noticiar, servindo de modelo para outros inúmeros programas de notícias que se seguiram, até mesmo na televisão. Ficou no ar até 1968 com o slogan: “testemunha ocular da história".


Auditório lotado durante o 'Programa Paulo Gracindo'

Casos e lembranças

A credibilidade do noticiário era tão grande que enquanto o Repórter Esso não deu a notícia do fim da guerra, o público não acreditou. Segundo relatos de funcionários antigos um jornal até publicou: “A guerra só acabou depois que o Repórter Esso noticiou”.

Conta-se que, quando Getúlio Vargas morreu, Vitor Costa (então diretor da rádio) copiou a carta testamento e a levou para ser lida em primeira mão por Eron Domingues, o locutor que deu voz ao jornal. Só depois desse fato é que, com as informações corretas sobre suicídio de Getúlio, dadas pelo Repórter Esso, a população foi para as ruas.

A radialista Dayse Lúcidi, que mantém há 38 anos no ar seu programa diário “Alô Dayse”, comenta sobre o profissionalismo da Rádio Nacional. “Constantemente Leonei Mesquita, diretor de jornalismo da rádio nos anos 60, alertava repórteres e locutores: “se vocês derem que morreu alguém, essa pessoa vai ter que morrer mesmo”.

De 1930 até o final de 1950, o rádio possuía um enorme "glamour" no Brasil. Ser artista ou cantor de rádio era um desejo acalentado por milhares de pessoas, especialmente os jovens. Pertencer ao "cast" de uma grande emissora como a Rádio Nacional era suficiente para que o artista conseguisse fazer sucesso em todo o país e obtivesse grande destaque e prestígio.

Em suas publicações, o jornalista José Ramos Tinhorão, um dos maiores pesquisadores da música popular brasileira, comenta: “A Rádio Nacional não era só vitrolão. Existiam os programas ao vivo com os cantores, como o programa de Francisco Alves aos domingos. Havia orquestras diferentes para quatro maestros diferentes. Era o maior quadro de músicos contratados do Brasil. Você tinha uma orquestra sobre a regência do maestro Lazoli, outra sobre a regência dos dois irmãos Gnattali. Era uma coisa fantástica, uma experiência única e irreproduzível”.

Um dos mais antigos funcionários da Rádio Nacional é Djalma de Castro. Ele continua trabalhando e busca na memória fatos inesquecíveis. Por exemplo, conta que Roberto Carlos andava pelos corredores da rádio esperando uma oportunidade para cantar em algum dos programas da rádio, até que foi chamado por César de Alencar. A partir de então, passou a se apresentar frequentemente no programa de Carlos Imperial, seu amigo e conterrâneo.


Emilinha Borba e Marlene dividem o microfone da esquerda com César de Alencar

Os truques de sonoplastia

Os seriados "Gerônimo, o herói do sertão" e "O Sombra" ficaram famosos pela criatividade e imaginação dos contra-regras. O estúdio e técnica do radioteatro, ainda hoje no 22º andar do edifício A Noite, guarda inusitados aparelhos que simulavam diferentes efeitos sonoros. Vale citar o som de soldados marchando numa parada de sete de setembro; o apito de navio saindo do porto; passos na calçada; carroça andando e muitos outros.

Djalma lembra que, certo dia, Floriano Faissal, conhecido diretor de radioteatro, queria simular o som de um bebê chorando ao lado de um formigueiro, mas não sabia como fazer. Passando por uma farmácia, Djalma teve a idéia de usar um sonrrisal se dissolvendo na água para fazer o barulho das formigas e juntou a isso o som do choro. A cena foi um sucesso.


Visão geral da sala de sonoplastia das radionovelas

Nos dias de Hoje

A Rádio Nacional foi revitalizada em 2003. Um convênio com a Petrobras foi fundamental para recuperar grande parte de sua história. Os três últimos andares do prédio de número 7 da Praça Mauá estavam praticamente inabitáveis. A emissora conta hoje com três estúdios para gravação de programas diários de entretenimento, música, informação e esporte. Além deles, o auditório Radamés Gnattali (170 lugares) e o estúdio Paulo Tapajós formam um conjunto para apresentação e gravação de programas ao vivo, como o de Dorina Ponto Samba e peças teatrais.

Ali também está guardada uma relíquia: um piano de calda Steinway & Sons, um dos três únicos exemplares existentes no mundo. Não é raro presenciar o espanto e a admiração de diversos músicos que não resistem aos encantos do velho piano alemão. Até param para dedilhar uma melodia nas teclas gastas do instrumento. Também resiste ao tempo a parede de vidro, importado da ex-Tchecoslováquia, que separa um auditório do outro. A peça chegou de navio em 1936 e precisou subir pelo lado de fora do prédio por cabos de aço, sob o olhar espantados de quem passava.

Outra raridade guardada a sete chaves em uma das salas mais antigas e preservadas da Rádio Nacional é a cabine telefônica. Dali o diretor da Rádio se comunicava diariamente com o então presidente Getúlio Vargas.

O acervo da Rádio Nacional abriga 24 mil LPs de 33 rotações, 3.850 compacto simples e 1.800 LPs de 78 rotações. Sem contar os 3.500 discos de acetato que já estão digitalizados. O arquivo contém ainda quase 1.500 fotografias, 595 registros de textos - somando aproximadamente 459 mil páginas - usados nas novelas de rádio, programas de auditórios, radioteatros e outros. Outra parte desse material encontra-se no Museu da Imagem e do Som, no Rio de Janeiro, com o nome de "Coleção Rádio Nacional".

Passear pelos corredores da emissora é mergulhar na vida de personagens que fizeram história. Atores como Walter D`Ávila, Oduvaldo Viana, Paulo Gracindo e Henriqueta Brieba. Nas fotografias estampadas nas paredes podemos lembrar destes e de tantos outros que ainda estão tão vivos na memória musical dos brasileiros. Orlando Silva, Emilinha Borba, Marlene, Ângela Maria e Cauby Peixoto são só alguns dos vários nomes que estão na entrada do foyer da Rádio.


Atual vista do Píer Mauá (em frente ao prédio A Noite) e o projeto de revitalização do espaço

FOTOS: um passeio pela história da Rádio Nacional

Apresentação da Orquestra Tabajara

Apresentação da peça 'Rádio Nacional' 1

Apresentação da peça 'Rádio Nacional' 2

Auditório Radamés Gnattali

Cabine Telefônica, na qual o diretor da Rádio falava com autoridades, como Getúlio Vargas

Cais do Porto visto da Rádio Nacional 1

Cais do Porto visto da Rádio Nacional 2

Entrada do Foyer