Publicado em 05 de fevereiro de 2010

“Nosso bloco saúda os foliões, a imprensa falada, escrita e projetada”. Com esta frase, pintada em toscos estandartes, os blocos de ruas, as ainda pequenas escolas de samba e os grupos formados pelas comunidades dos bairros - principalmente dos subúrbios - entravam e pediam passagem nas ruas do Rio de Janeiro e São Paulo. Isso acontecia na metade do século passado, durante o carnaval. Eram os precursores da grande festa de rua, que hoje toma conta das duas maiores cidades brasileiras.
A partir de 8 até o dia 17 de fevereiro, sempre às 20h30m, a TV Brasil apresenta Nos Braços da Batucada, desfilando um pouco da história do carnaval brasileiro. Para contar essas histórias, a Trapiche Produções, responsável pelos dez documentários, buscou não apenas filmes, fotos e gravações do período , inclusive mostrando um Rio de Janeiro e uma São Paulo que muitos não conheceram, mas também depoimentos de sambistas, historiadores, músicos e carnavalescos. Entre eles estão Monarco, Sérgio Cabral, Dodô da Portela, Fernando Pamplona, Martinho da Vila, Cristina Buarque, Aluísio Machado, Zeca Pagodinho, Pedro Luís, João Roberto Kelly, Beth Carvalho e Neguinho da Beija Flor.
A ordem do desfile

O desfile de Nos Braços da Batucada será aberto pelo Cordão da Bola Preta, na segunda-feira (8), um dos mais tradicionais do Rio de Janeiro. No ano passado, comemorando seu 90° aniversário, o Bola levou mais de um milhão de foliões para as ruas do centro da cidade. Com sambas e marchinhas, o bloco, que se inspirou no estampado do vestido de uma bela moça para encontrar um nome para a agremiação, hoje é considerado patrimônio cultural da cidade. Recordando suas histórias e sucessos musicais estão no programa Beth Carvalho, João Roberto Kelly, a direção da agremiação, além de pessoas como o garçom Bernardo Carlos, que trabalha no centro do Rio e sempre acompanhou os desfiles.
Mesmo participando ativamente da história da cidade, o samba nem sempre recebeu a devida atenção de pesquisadores. Seus primórdios hoje são garimpados por historiadores e sambistas. A partir da segunda metade do século passado, o cinema despertou para estas manifestações. Nos Braços da Batucada de terça-feira (9) procura a Memória do Samba. Com trechos de filmes de cineastas como Leon Hirzmann e depoimentos de Sérgio Sanz, João Carlos Rodrigues, Estevão Ciavatta e Raquel Valença, o documentário revela momentos importantes, inclusive os inesquecíveis improvisos de partido alto.
O Cacique de Ramos, que surgiu inspirado no Bafo e se transformou no seu maior rival, é o dono da passarela de Nos Braços da Batucada na noite de quarta-feira (10). Pode ser apontado como um dos focos da resistência do samba, principalmente do pagode, quando este gênero passou um tempo rejeitado pela mídia. Suas rodas abrigaram importantes compositores e, na quadra de Ramos, foi criado o conjunto Fundo de Quintal. Com fantasias simples e muita empolgação, o Cacique conquistou milhares de adeptos para seus desfiles. Sombrinha, Almir Guineto, Beth Carvalho, Marcelo D2, Dudu Nobre recordam a história dessa tribo.
Na quinta-feira (11) será a vez do Bafo da Onça desfilar em Nos Braços da Batucada. Fundado no bairro do Catumbi por Tião Maria, o folião que passava os dias de carnaval vestido com uma capa de onça, é o precursor dos grandes blocos. É responsável também por algumas ideias que se transformaram em atrações das escolas de samba, como os ensaios de quadra, show de mulatas e rodas de pagodes. Além de registros de seus desfiles, o documentário recorda Oswaldo Nunes, compositor do bloco, criador de sucessos do carnaval. Para contar um pouco da história do Bafo e falar de sua importância, foram convidados Zeca Pagodinho, Beth Carvalho, Pedro Luís (Parede), Adele Fátima e os diretores da agremiação.
Sexta-feira (12), véspera da abertura oficial do carnaval, apesar da cidade já está tomada pela festa, a série Nos Braços da Batucada novamente mergulha no passado. Em Bonde, um bloco carnavalesco, mostra como este meio de transporte marcou a vida do carioca, criou comportamentos e serviu de inspiração para centenas de sambas e marchinhas. Ligando vários pontos do Rio de Janeiro, desde a Zona Sul, passando pelo Centro e Zona Norte, até os subúrbios, seus vagões se transformavam em verdadeiros bailes ambulantes durante o carnaval. Para recordar este período, foram convidados Evaristo de Macedo, Fernando Pamplona, Dona Ivone Lara e Sérgio Cabral.
No sábado de carnaval (13), Nos Braços da Batucada abre espaço para o Samba de Terreiro. No passado este gênero dominava os ensaios das escolas de samba e, muitas vezes, as composições se transformavam em sucessos. O samba enredo, na maioria das vezes, só era divulgado na semana que antecedia o carnaval. Hoje, praticamente esquecido, ainda desperta paixões como a de Zeca Pagodinho, que considera as músicas melhores e mais alegres que os sambas enredo. Cristina Buarque e Teresa Cristina participam do documentário.
O título Escola de Bamba surgiu no Estácio, Rio de Janeiro, onde os sambistas se reuniam próximo a uma Escola Normal. Os compositores diziam que, enquanto no estabelecimento oficial diplomava professores, lá formavam os mestres do samba. A Escola de Bamba é o tema da série no domingo (14). A Deixa Falar - apontada como a primeira Escola de Samba- as rodas de samba na balança da Praça Onze, os primeiros desfiles com aproximadamente 100 componentes em cada agremiação serão comentados por Monarco, Sérgio Cabral, Xangô da Mangueira, Hélio Turco, Fernando Pamplona, Martinho da Vila e Aluísio Machado.
O dançarino, passista e coreógrafo Carlinhos de Jesus, criado na Escola de Samba Em Cima da Hora, participa do programa da segunda-feira de carnaval (15). Com Sérgio Cabral e Chiquinho dos Santos, ele mostra a vida de uma escola que já viveu momentos de glória, inclusive com sambas que entraram para a história do carnaval como Os Sertões, e hoje luta para sobreviver no mundo dos grandes espetáculos. Criada no bairro de Cavalcante, que preserva uma dos mais animados carnavais do Rio de Janeiro, seus integrantes falam das diferenças entre os desfiles no Sambódromo, diante de turistas e pessoas pouco ligadas ao samba, e nas ruas da Zona Norte ou subúrbio, onde há calor da comunidade.
A evolução do Samba Enredo e a importância de nomes como Silas de Oliveira e Beto Sem Braço são os destaques de Nos Braços da Batucada de terça (16). A série acompanha todo o processo da escolha de um samba enredo no Império Serrano. Desde a seleção do tema, passando pelas primeiras reuniões dos compositores, até à decisão final na quadra. Seu Jorge, Arlindo Cruz, Dona Ivone Lara, primeira mulher admitida na ala de compositores e Jack Vasconcelos mostram como um desfile é construído.
Para fechar a série na quarta-feira (17), o tema é o Samba São Paulo, com destaques de nomes como Adoniram Barbosa, Paulo Vanzolini, Geraldo Filme e os Demônios da Garoa. Carlinhos Vergueiro, Cristina Buarque e Oswaldinho da Cuíca conduzem a equipe pelos bairros da cidade freqüentados pelos grandes sambistas paulistas. Comentam as dificuldades enfrentadas pelas escolas de samba até a metade do século passado e os movimentos, como o Samba da Vela, que surgem em São Paulo revelando novos talentos.