Entrevista com o diretor de'Debret - Uma Aquarela do Brasil'

Publicado em 3 de dezembro de 2009

Depois de permanecer 15 anos no Brasil, onde exerceu o cargo de Pintor de História dos governos de D.João VI e de D.Pedro I, e de haver realizado uma extensa documentação em aquarelas da sociedade colonial brasileira da primeira metade do século XIX, Jean Baptiste Debret decide voltar para a França. Acompanhado da Musa da História, Clio, com quem contracena ao longo de todo o filme, Debret rememora o percurso que o fez atravessar dos conturbados anos da Revolução Francesa até a viagem ao Brasil, como integrante da Missão Francesa que D.João mandou vir de Paris.

De Jom Tob Azulay. Docudrama. 2000. Cor. 29min. Com os marionetes de Miguel Vellinho e vozes de Camila Amado, Nelson Dantas, Edwin Luisi, Luis de Lima, Stephane Brodt.

Debret - Uma Aquarela do Brasil tem roteiro e direção de Jom Tob Azulay, um dos mais prestigiados diretores do cinema nacional. Entre seus trabalhos, estão os longas-metragens Doces Bárbaros (1978), Corações a Mil (1983), O Judeu (1995). Para a televisão brasileira, produziu e co-dirigiu a série educativa Conhecendo o Brasil da TVE (1999), além do programa Salto para o Futuro (TV Escola/Ministério da Educação, 2000). Atualmente, está produzindo e dirigindo o longa-metragem Mátria, filme histórico em co-produção com Portugal e o documentário Quixote nas Trevas.

O cineasta falou à TV Brasil sobre o seu média-metragem que a emissora exibe nesta sexta, 4 de dezembro, na faixa Média Nacional, às 20h, e explicou a técnica de manipulação de bonecos – trabalho pioneiro no cinema, nunca utilizado no Brasil e nem no exterior –, recurso que usou para transpor para as telas a história de Jean Baptiste Debret .

Jom Tob que foi aluno de um dos maiores diretores brasileiros de cinema, Alberto Cavalcanti (1897-1982), também sugere ao telespectador de Debret – Uma Aquarela do Brasil uma reflexão sobre o que representou para o progresso e a civilização do Brasil a vinda de D.João VI para o nosso país, e também a criação da Escola Imperial de Belas Artes, responsável pela criação e o registro histórico das imagens do Brasil Colônia que conhecemos.

Maiores informações sobre o cineasta podem ser encontradas em sua página na internet www.jtazulay.com.br.


TV Brasil - Debret - Uma Aquarela do Brasil é seu primeiro filme de animação?

Jom Tob Azulay - O Debret não é um filme de animação convencional, na medida em que a animação não é quadro a quadro. É apenas um filme com marionetes animadas por manipulação baseada na secular técnica japonesa conhecida por Bunraku, com a qual o encenador Miguel Vellinho me familiarizou. Cheguei à conclusão que seria a técnica que melhor me servia por ser a que mais realismo daria aos bonecos. Eu queria bonecos que fossem quase gente. Assim, o Debret não é um filme de animação, mas um filme com marionetes, e das marionetes eu tinha me aproximado quando fiz O Judeu, filme histórico sobre o criador de teatro com marionetes Antonio José da Silva, conhecido como O Judeu, do século 18 em Portugal. Desde então, sempre quis fazer um filme com marionetes pela fascinação que desenvolvi por elas. Teatro de marionetes é o pré-cinema.


TV Brasil - O que o motivou a utilizar o teatro de bonecos para contar a história de Jean Baptiste Debret, um dos artistas responsáveis pelos mais importantes registros do Brasil Colônia?

Jom Tob Azulay - Pela mesma razão pela qual o Antonio José da Silva, no século 18, utilizou os bonecos para encenação de suas óperas, porque não tinha recursos para encenar óperas com atores e cantores ao vivo. Porque eu queria contar com atores e linguagem ficcional a história do Debret sem ter que utilizar os recursos convencionais dos documentários narrativos. Na verdade, este filme é fruto de um concurso do BNDES que ganhamos para realização de um documentário sobre o Debret e, em lugar de ir para a França filmar os locais onde Debret viveu, preferi recriar através da rica iconografia francesa de época e suas aquarelas e quadros e bonecos caracterizados o período em que ele viveu.

Essa técnica de manipulação de bonecos utiliza os manipuladores em cena. Os bonecos são grandes, às vezes exigindo dois ou até três manipuladores para animar um boneco (um, a cabeça; outro, os braços; outro, as pernas). Isso pode funcionar no teatro, mas no cinema não funciona nunca. Assim, imaginamos vestir totalmente os manipuladores com malhas azuis (mandadas especialmente fazer para isso), filmar sobre um fundo azul e com chroma-key justapor as imagens dos bonecos sobre os quadros e imagens de época.


TV Brasil - O que mais o agradou nesse média-metragem?

Jom Tob Azulay - Foi essa confluência de técnicas e linguagens que é algo que sempre faço em meus filmes. Desde cedo, com meu mestre Alberto Cavalcanti aprendi que não existe fronteira rígida entre o que as pessoas chamam de ficção e documentário. Meus filmes, como o Corações a Mil (1983), às vezes passam como ficção, às vezes como documentário. No caso do Debret, é docudrama típico. Essa mistura também aconteceu na utilização, primeiro da secular arte das marionetes registrada em película 35mm que, por sua vez, foi editada e finalizada com modernos (naquela época) recursos de computação gráfica digital. Em 2001, foi uma epopéia conseguir isso, que foi possível graças à cooperação dos Estúdios Mega.


TV Brasil - Que sugestões daria ao espectador para assistir a Debret - Uma Aquarela do Brasil, que possam auxiliá-lo a compreender melhor o período da História do Brasil abordado no filme?

Jom Tob Azulay - Bem, o Debret tem relações transversais com História do Brasil e história da arte em particular. Eu sugeriria que o espectador, a partir desse filme, refletisse sobre o que representou em termos de progresso e civilização a vinda de D.João VI para o Brasil, que apoiou o trabalho da chamada Missão Francesa em prol do desenvolvimento da arte e de uma consciência artística no Brasil. A criação da Escola Imperial de Belas Artes (hoje Museu de Belas Artes) deu início à política cultural no país. Naquela época, achavam alguns que um país novo como o Brasil não precisava de uma escola de pintura, bastaria uma de desenho. O Debret, o Montigny  e outros insistiram e, graças a D.Pedro I, conseguiram. E basta pensar que uma escola de pintura naquela época, sendo a entidade responsável pela criação e registro histórico das imagens sobre o país, representava o mesmo que a televisão e o cinema representam para nós. Por fim, eu sugeriria que o espectador visitasse no Jardim Botânico a fachada desse edifício da Escola Imperial de Belas Artes, que está lá preservada no meio das plantas, como um melancólico testemunho da omissão criminosa com que os sucessivos governos desta cidade deixaram destruir o patrimônio arquitetônico do Rio de Janeiro.