O Poeta e a Bailarina - uma declaração de amor ao cinema mudo

Publicado em 26 de novembro de 2009


Roteirista André Scucato e diretora Cristina Pinheiro

A diretora Cristina Pinheiro e o roteirista André Scucato conversaram com a TV Brasil sobre a produção O Poeta e a Bailarina, que a emissora leva ao ar nesta sexta, dia 27, às 20h, na faixa Média Nacional. O filme é uma produção do Cinema de Poesia, núcleo de estudo e produção artística, criado em 2004 pelo casal. De lá pra cá, o núcleo já realizou de forma independente 50 curtas digitais sobre música literatura e cinema, divulgando a arte e os artistas, com 350 seleções em festivais, em 28 países, onde conquistaram 17 prêmios.

TV Brasil - O que serviu de inspiração para o roteiro de O Poeta e a Bailarina?

Cristina Pinheiro e André Scucato – Como seria se dois clowns do tempo do cinema mudo vivessem no mundo atual? Partindo desta questão e adicionados a elementos autobiográficos, o filme mostra dois clowns (palhaços) retirados da época do cinema mudo e colocados para viver nos dias atuais. E revela um dia na vida deles, e seus encontros e desencontros na Cidade do Rio de Janeiro. O Poeta personifica o encanto com a poesia e a sua distração da realidade comum, e a Bailarina, a procura feminina eterna pelo amor. Ambos possuem dificuldades de compreender a realidade e encontram felicidade nos pequenos gestos. E o amor pela poeticidade do cinema mudo, principalmente por Charles Chaplin, completou nossa inspiração.

TV Brasil - Se o filme é "uma declaração de amor ao cinema mudo", como informa a sinopse, o que representam, neste contexto, os personagens Poeta e Bailarina?

Cristina Pinheiro e André Scucato – Os dois protagonistas (o Poeta e a Bailarina) representam a perda da inocência dos tempos modernos, a ingenuidade dos clowns de Chaplin e dos filmes de Fellini (Federico Fellini). Com os diálogos ilustrados por cartelas, a narrativa é constituída pela ação dos personagens. A direção dos olhares, a experimentação do gesto, o trabalho preciso da atuação que fala a partir da expressão e do movimento. Há uma relação entre o tempo dos personagens e a fotografia. A imagem tem uma cor sépia, desgastada e, muitas vezes, acelerada. Os únicos detalhes coloridos são o jardim do hospício, o cachecol do poeta e o laço do vestido da Bailarina. Os figurinos desenhados por Patrícia Muniz e a maquiagem de Marcelo Labela foram essenciais na caracterização do Poeta e da Bailarina.

Há outras relações deste trabalho com o cinema mudo. A trilha musical do filme é assinada por Scott Joplin, famoso compositor e pianista do início do cinema mudo. O filme todo é mudo, com exceção da canção final, A Sós, composta por Romulo Pacheco (ator que interpreta o Poeta), na voz do músico Bena Lobo. Misturando elementos clássicos e modernos, O Poeta e a Bailarina é uma declaração de amor ao cinema mudo. Arriscamos, experimentamos colocar nos dias de hoje dois personagens dos tempos de ontem em muitos sentidos. Como homem e mulher, como cinema de ontem e o de hoje. Desencaixamos  o contemporâneo com a ingenuidade do casal. Como bem disse o crítico e cineasta Luiz Rosemberg Filho, "O Poeta e a Bailarina, sem deixar de ser poético, reinterpreta no presente as amadurecidas uvas do cinema mudo. E ontem e hoje, os mesmos problemas ao redor do afeto, da criação e do efêmero lado da vida covardemente assassinado por uma não-história. (...) É preciso ser! É preciso beber muito e dançar! É preciso ser feliz aqui e agora!".

TV Brasil - Como nasceu o Cinema de Poesia e como funciona na prática?

Cristina Pinheiro e André Scucato – O Cinema de Poesia nasceu da união da atriz e bailarina Cristina Pinheiro com o poeta André Scucato no ano de 2004. O Cinema de Poesia é um núcleo de estudo, pesquisa e produção artística que utiliza a tecnologia do cinema digital para estudar o processo de criação das artes.

O tema da companhia nos cinco anos de produção é “A sua arte ajuda a fazer a nossa arte, a nossa arte ajuda a fazer a sua.” No brinde, o bordão “Arte, amor e amizade” retrata os três princípios que regem a fundação do grupo. A produção intensa só foi possível pela união que utiliza a arte como moeda de troca, praticando um escambo artístico. Realizando um escambo na arte, o grupo Cinema de Poesia parte ora do teatro, ora do cinema, da literatura, da pintura para produzir a sua obra seja audiovisual, pictórica, textual ou em forma de música. A integração e a parceria com artistas de diversos campos possibilitam a troca de experiência e de ajuda mútua na produção, pensamento e registro de uma importante história da arte independente nacional. O grupo pesquisa a escrita audiovisual e como ela pode pedagogicamente atuar no ensino fundamental. O Poeta e a Bailarina, por exemplo, foi exibido na Escola Municipal Robert Kennedy, em Petrópolis, onde os alunos, além de críticas cinematográficas, construíram uma peça de teatro, esculturas, histórias em quadrinhos a partir do curta-metragem.

Maiores informações no site wwww.cinemadepoesia.art.br ou em em http://www.cinemadepoesia.art.br/opoetaeabailarina.