Publicado em 11 de novembro de 2009

Raquel Berger dirigiu o filme 'Orí'
A diretora Raquel Berger falou à TV Brasil sobre suas pesquisas acerca da construção da identidade negra no Brasil e sobre a historiadora Beatriz Nascimento, cujo trabalho serviu de base para o roteiro de Ôrí . Raquel Berger, que é formada em Sociologia e Cinema pela USP, comentou também sobre o seu trabalho com o diretor baiano Glauber Rocha, do tratamento que Zumbi dos Palmares recebeu em Ôrí e do conceito dado a 'quilombo' no filme, além de explicar por que o longa-metragem levou 11 anos para ficar pronto.
TV Brasil - Sendo sua descendência européia, o que a motivou a pesquisar sobre o negro no Brasil?
Raquel Gerber - Sou descendente de europeus imigrados durante as guerras e trago comigo a experiência da migração e desterritorialização como os africanos. Com Glauber Rocha caminhei a partir da herança histórica da cultura africana na Bahia buscando a descolonização da cultura brasileira através do cinema.
Conversávamos sobre o psiquismo do homem que passou pelo processo do despossuimento de sua cultura original e de sua pessoa humana no processo da transmigração, na mudança de território, e na escravidão. Falávamos sobre o trabalho do psiquiatra negro da Martinica Frantz Fanon, que estudava os processos da mente do homem que sofreu estes processos. Refletíamos sobre como alcançar através de novos sons/imagens, a verdadeira liberdade do homem que passou pela opressão cultural.
TV Brasil - Quem foi Beatriz Nascimento, cuja história é abordada no filme? Fale um pouco sobre ela.
Raquel Gerber - Beatriz Nascimento foi uma historiadora negra com origem em Sergipe, que pesquisou a continuidade da instituição do “quilombo”, da África do séc. XVI às Américas do séc. XX. Foi a primeira historiadora brasileira oficialmente convidada pelo Governo Independente de Angola, após o processo de independências nacionais do colonialismo português que aconteceram na África. Ela identifica ali os mesmos padrões migratórios de povos, ocorridos no sentido norte para o sul, atravessando a floresta equatorial africana e depois no Brasil, do norte para o sul, acompanhando os vários ciclos econômicos do Brasil Colonial. Para ela, foi transplantado para as Américas um tipo de vida e de ética, que era africana. Vê o quilombo de Palmares como uma “correção da nacionalidade brasileira”. Numa época em que Portugal estava dominado pela Espanha, e o Brasil era terra de ninguém, existiu a nação palmarina trazendo o sincretismo da etnia Bantu e integrando todos os povos presentes no Brasil do séc. XVII. Beatriz buscou sua própria auto-imagem, mas refletida numa história livre, de migrações pelos territórios, e de profunda realização de sua alma. Faleceu assassinada no Rio de Janeiro em 28/01/1995.
TV Brasil - Como seu filme Ôrí trata Zumbi dos Palmares?
Raquel Gerber - Zumbi de Palmares aparece em Ôrí através das filmagens do primeiro ato público em 1978, em São Paulo, capital, Vale do Anhangabaú, com a criação do Dia Nacional da Consciência Negra, como resgate moderno do movimento negro, em busca de uma imagem verdadeira de liberdade para a reconstrução da própria auto-imagem positiva do negro brasileiro na modernidade. Aparece em Ôrí como a busca de um conceito, de uma imagem, de um mito, de territórios, ou de um destino; na instalação do Memorial Zumbi em 20/11/1982, na Serra da Barriga, União de Palmares, Alagoas, Nordeste do Brasil; junto ao Hino Nacional Brasileiro; à Mãe Hilda e Vovô da Bahia (do Ylê Ayiê); de Dulce Pereira; e do historiador Joel Rufino dos Santos que nos pede que “não deixemos morrer o sonho tão sonhado por Zumbi e seus companheiros para que a vida vença a morte!” E Orí diz: que o orixá Ogun, deus guerreiro do panteón africano no Brasil, nos inspire, para que desafiemos o caos cósmico e planetário; essa é também uma das formas em que Zumbi aparece em Ôrí.
TV Brasil - Nas suas pesquisas sobre a identidade do negro no Brasil, o que mais chamou sua atenção e que foi destacado no filme?
Raquel Gerber - A falta de imagens do negro na historiografia oficial brasileira. Pesquisei livros didáticos de História desde o séc.XIX na coleção da professora Ana Maria Camargo, da Geografia e História da USP. Não é mais possível a identificação positiva com a imagem do homem escravo, despossuído de si próprio, sua história e cultura. E aí, surgia a questão do olhar, e de como você vê o outro.
O filme Ôrí trabalha o olhar, ver coisas com novo olhar, nova forma e informação, com respeito e dignidade pela cultura mais antiga da humanidade – África berço do planeta, coração aviltado da terra, que terá que ser redimido. Em Ôrí, o conceito de quilombo como união de homens identificados uns com os outros é ponto focal, como o conceito de Ôrí, que significa em língua de origem yorubá “cabeça”, e diria consciência negra, com um assento ancestral também.
E a coisa que mais me impactou e inspirou: a África ainda tem o olhar puro e a força do coração na expressão do ser, que marcou a nossa forma brasileira de ser em essência.
TV Brasil - E por que Ôrí levou 11 anos para ficar pronto?
Raquel Gerber - Filmamos em comunidades negras brasileiras, sobretudo em São Paulo, de modo contínuo durante cinco anos, acompanhando o desenvolvimento da consciência de algumas lideranças e de comunidades no tempo. Também buscávamos a relação entre pensamento político e religioso, pois muitos membros do Movimento Negro na época buscavam a relação com uma espiritualidade de origem africana. E sobretudo em relação à religião do candomblé, herança brasileira de origem Yorubá-Nagô, onde o padrão da relação entre poder político e religioso é ligado originalmente à figura do “rei”. E isto trazia a questão do conceito de poder para os africanos que nos interessava.