PROGRAMA DO DIA 26 DE AGOSTO DE 2003

TERRORISMO E MÍDIA (SÉRGIO VIEIRA DE MELLO)

A partir do atentado à sede da ONU em Bagdá, ocorrido nesta terça-feira, 19/08, o Observatório da Imprensa discutiu a cobertura dada pela mídia aos atos terroristas. A tragédia que causou a morte de dezenas de pessoas, entre elas o brasileiro Sérgio Vieira de Mello, chefe da missão da ONU no Iraque, pode ser o ponto de partida para uma reflexão mais profunda: o que há de errado na cobertura? O que fazer para evitar que o terrorismo continue avançando? A quem interessa esse atentado contra a ONU - instituição que sempre foi contra a guerra e que agora levava ajuda humanitária aos iraquianos e trabalhava, paralelamente às forças de coalizão, na reconstrução do país. A mídia está sendo complacente com os terroristas?

Leia o resumo do programa

  Veja o Compacto

BOMBAS & MANCHETES
Terror quer a mídia, mídia entrega-se ao terror
Alberto Dines

Precisamos de uma imprensa livre para ajudar a prevenir uma ruptura que pode ter desastrosas conseqüências ao aumentar o potencial das formas extremas de violência. Precisamos identificar as razões deste estado de coisas altamente emocional e, juntos, detê-lo. A mídia tem uma responsabilidade pedagógica.(Sérgio Vieira de Mello, Viena, 21/11/2002)

Sem repercussão o terror não aterroriza. O terrorista não é apenas um narcisista, é um propagandista: precisa que falem dele e de seus atos. A sangueira precisa ser exposta e badalada porque só assim promovem-se os seus pretextos.

Leia na íntegra

A mídia é usada pelo terrorismo?

Resultado:

Sim: 84%

Não: 16%

Aqui você pode participar de fóruns sobre assuntos ligados à imprensa, deixar seu recado no nosso mural e ler as perguntas dos telespectadores.

Perguntas - Aqui são colocadas as perguntas dos telespectadores que chegam por telefone, fax ou e-mail durante o programa e ao longo da semana.

5 Bloco - Leia a opinião dos participantes do programa, sobre o debate.

Bem-vindos ao Observatório da Imprensa.

Você já percebeu, você sabe: o objetivo do terrorista é aterrorizar. Sem repercussão, o terrorismo se esgota. Além de bombas, o terrorista precisa de manchetes. Sem bombas e sem manchetes, as idéias que alimentam o terrorismo ficam confinadas e ignoradas.

Significa que o terrorismo, os terroristas e os aliados do terror, entre outras violências, seqüestra a mídia e a coloca a seu serviço. O que fazer?

Jornalistas não podem admitir, sob hipótese alguma o controle do seu noticiário. O jornalismo ou é livre ou não é jornalismo. O que aconteceu precisa ser mostrado. Em toda a sua dimensão e em toda a sua crueldade. E para que a mídia não seja totalmente tutelada pela torpeza da violência política só resta a ela um caminho: não legitimar os morticínios, os fins não podem justificar os meios.


Leia na íntegra

GAVETA DA MEMÓRIA
A responsabilidade pedagógica da mídia
Sérgio Vieira de Mello

Pronunciamento de Sérgio Vieira de Mello (em 21/11/2002), então à frente do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, no seminário "Visões para o futuro das comunicações", realizado em Viena, de 20 a 24 de novembro de 2002, por ocasião do décimo aniversário da instalação do centro de operações do International Press Institute (*) na capital austríaca. Título e intertítulos da redação do OI.

Sr. presidente, diretores e integrantes dos comitês nacionais do International Press Institute (IPI), representantes das organizações pela liberdade de imprensa, senhoras e senhores.

Leia na íntegra


RESUMO DO PROGRAMA

TERRORISMO E MÍDIA (SÉRGIO VIEIRA DE MELLO)

O Observatório da Imprensa de 26 de agosto debateu questões como o ataque terrorista à sede da ONU em Bagdá, que teve como conseqüência a morte do embaixador Sérgio Vieira de Mello. Alberto Dines, em editorial, ressaltou: "Além de bombas, o terrorista precisa de manchetes. Sem bombas e sem manchetes, as idéias que alimentam o terrorismo ficam confinadas e ignoradas".

Participaram do debate o embaixador e escritor, João Almino e o professor do instituto de relações internacionais da UnB, Eduardo Viola, ambos em Brasília; os editores de internacional da Folha de S. Paulo, Sérgio Malbergier e do Estado de S. Paulo, Paulo Nogueira, em São Paulo; e o professor de História da UFRJ, Francisco Carlos Teixeira, em nosso estúdio aqui no Rio. O programa contou também com o depoimento do Secretário Nacional de Direitos Humanos, Nilmário Miranda.

Logo no início do debate, João Almino fez questão de afirmar a importância do papel das Nações Unidas frente à ameaça terrorista: "Se há uma saída, se há caminhos para essa crise, essa saída passa por um reforço do papel das Nações Unidas" e lembra que Sérgio Vieira de Mello sempre trabalhou com esse intuito.

Sérgio Malbergier, respondendo à afirmação de Alberto Dines de que a cobertura dada - tanto pela Folha quanto pelo Estadão sobre as Farc, no domingo 24 de agosto - não ouviu o outro lado da questão, dando voz apenas à milícia terrorista, disse que nem sempre é possível colocar os dois lados em igualdade de condições, mas é uma política da Folha sempre apresentar fielmente os dois lados só que, às vezes, o problema de espaço impossibilita.

Já Paulo Nogueira lamentou a inevitável posição que a mídia tem que assumir na cobertura dos atentados terroristas: "É uma situação quase inescapável, você não pode deixar de noticiar os fatos e, ao mesmo tempo, a notícia desses fatos pode beneficiar o terror".

Eduardo Viola discorda de Paulo Nogueira, causando polêmica. Segundo ele, a mídia não é usada pelo terrorismo, nem transforma esses acontecimentos em espetáculo: "O mundo está em guerra, essa é a realidade. Essa guerra é chocante, não se trata de um show, a mídia não alimenta o terrorismo", afirmou, alegando que nós não conseguimos aceitar esse quadro.

Manoel Magalhães (estagiário)


EDITORIAL

Bem-vindos ao Observatório da Imprensa.

Você já percebeu, você sabe: o objetivo do terrorista é aterrorizar. Sem repercussão, o terrorismo se esgota. Além de bombas, o terrorista precisa de manchetes. Sem bombas e sem manchetes, as idéias que alimentam o terrorismo ficam confinadas e ignoradas.

Significa que o terrorismo, os terroristas e os aliados do terror, entre outras violências, seqüestra a mídia e a coloca a seu serviço. O que fazer?

Jornalistas não podem admitir, sob hipótese alguma o controle do seu noticiário. O jornalismo ou é livre ou não é jornalismo. O que aconteceu precisa ser mostrado. Em toda a sua dimensão e em toda a sua crueldade. E para que a mídia não seja totalmente tutelada pela torpeza da violência política só resta a ela um caminho: não legitimar os morticínios, os fins não podem justificar os meios.

A mídia só pode existir em ambientes democráticos e numa democracia não vale o sacrifício de inocentes, não vale o desrespeito ao direito à vida. Numa democracia não vale o vale-tudo. O horror aos métodos terroristas não pode co-existir com a validação das suas idéias. Se admitimos os pretextos dos terroristas, por atroz e absurda coerência teremos que admitir os retextos do anti-terrorismo. Este é um circuito vicioso interminável que acabará destruindo todos os valores humanos e, sobretudo, aniquilando todos os direitos que a humanidade vem acumulando há séculos.

Sérgio Vieira de Mello como alto comissário da ONU para os Direitos Humanos sempre preocupou-se com o papel da mídia e sobretudo a sua missão pedagógica. Não esqueçamos as suas palavras: "é preciso equilibrar os imperativos da liberdade de expressão com a necessidade imperiosa de eliminar o ódio, particularmente o ódio racial, étnico e religioso". Ódio e terror são irmãos.


ARTIGO
Por Alberto Dines

BOMBAS & MANCHETES
Terror quer a mídia, mídia entrega-se ao terror

Alberto Dines

Precisamos de uma imprensa livre para ajudar a prevenir uma ruptura que pode ter desastrosas conseqüências ao aumentar o potencial das formas extremas de violência. Precisamos identificar as razões deste estado de coisas altamente emocional e, juntos, detê-lo. A mídia tem uma responsabilidade pedagógica.(Sérgio Vieira de Mello, Viena, 21/11/2002)

Sem repercussão o terror não aterroriza. O terrorista não é apenas um narcisista, é um propagandista: precisa que falem dele e de seus atos. A sangueira precisa ser exposta e badalada porque só assim promovem-se os seus pretextos.

O 11-Setembro é o exemplo maior do seqüestro da mídia pelo terrorismo internacional. O atentado foi cuidadosamente planejado para alcançar dois objetivos:

** matar o maior número de pessoas;

** produzir um espetáculo inesquecível.

Este Observatório mostrou na ocasião que o intervalo entre os dois choques contra as torres-gêmeas foi indispensável para que a mídia, alertada pelo primeiro impacto, estivesse pronta para cobrir o segundo. Assim, a mídia ocidental acabou produzindo o mais badalado comercial de todos os tempos para promover os valores opostos a uma mídia livre [leia também "Anotações de um observador atônito" (19/9/2001)].

Os dois atentados sucessivos em Mombai, na Índia, no último domingo, 24/8, seguiram a mesma sanguinária lógica: um intervalo de cinco entre um e outro para ajudar a mídia a divulgar a mortífera exibição.

Ao contrário do que escreveu Umberto Eco depois do 11/9, a mídia não deve ser "prudente" na cobertura de acontecimentos. Não há como escamotear fatos nem abrandar dimensões - este é o suporte da sua legitimidade [leia também "Mídia foi o melhor aliado de bin Laden" (2/12/2001)].

Qualquer sugestão para que se diminua o destaque ou se atenuem as dimensões de atos terroristas equivale a sugerir controles e censura. Impensável. Não esqueçamos que os censores militares brasileiros em setembro de 1973 sequer tentaram impedir que a mídia ignorasse a morte de Salvador Allende, queriam apenas que o assunto não chegasse às manchetes. Alguns jornais capitularam à "prudência", outros inventaram formas distintas para destacar o episódio.

Devemos repelir qualquer insinuação para que a imprensa seja mais "responsável" ao noticiar atos terroristas. Mas precisamos incentivar a imprensa, como instituição moral, para resistir às seduções do relativismo "politicamente correto" e eticamente abjeto que finge lamentar o sangue derramado pelos terroristas enquanto cinicamente valida suas causas e métodos.

Não podem passar em brancas nuvens as manifestações de autoridades, políticos e de certa imprensa dita "independente" que, a propósito do brutal assassinato de Sérgio Vieira de Mello, aceitaram e consagraram a diabólica lógica dos fins que justificam os meios [leia também "Terror: nem 'mas' nem meio 'mas'" (23/8/2003)].

A cobertura de CartaCapital, longe de ser uma condenação ao estado das relações internacionais produzido pela inépcia de George W. Bush, é um inequívoco endosso ao terrorismo como tática e como idéia. Com o cadáver do Alto Comissário da ONU para Direitos Humanos sendo velado no Rio, insultou-se não apenas sua memória mas também suas idéias.

O brasileiro assassinado em Bagdá testemunhou na África, na ex-Iugoslávia e no Timor o poder mortífero das mensagens de rancor e do ressentimento politizado [veja, nesta edição, "A responsabilidade pedagógica da mídia", de Sérgio Vieira de Mello].

Convém não esquecer que a cobertura sensacionalista deste mesmo semanário impediu a libertação da senadora colombiana Ingrid Betancourt nas mãos das FARC conforme denunciou sua irmã Astrid, em entrevista ao Globo (1/8/2003, pág. 29).

O que nos leva ao show internacional pró-terrorismo na selva amazônica e do qual participaram os dois jornalões paulistas (Estado e Folha, domingo, 24/8). As entrevistas com o n° 2 das FARC, Raúl Reyes, foram cuidadosamente preparadas pelos marqueteiros da organização para caracterizá-la e legitimá-la.

Ainda que a Folha designe as FARC como guerrilha-terrorista e o Estadão tenha formulado perguntas que irritaram o entrevistado, a tentativa de branqueamento do terrorismo ficou evidente:

** quando, ao Estado, Reyes tentou desvincular as FARC do narcotráfico brasileiro e em especial de Fernando Beira-Mar;

** quando a Folha, ingenuamente, tentou comprovar a "ausência do Estado" no território onde foi armada a promoção [leia, nesta edição, "Sozinhos na selva - ou quase"].

No Complexo da Maré, no Rio, também verifica-se diariamente a tal "ausência do Estado" mas a ninguém ocorreria a insanidade de classificar o banditismo lá reinante como guerrilha. É narcoterrorismo.

O homem-bomba e o carro-bomba precisam da mídia - sem ela sua demência fica confinada, escondida, inútil. Sua demagogia é escrita com o sangue dos inocentes. O terrorista precisa explodir-se em notícias. Mas os compromissos morais e pedagógicos do jornalista não podem torná-lo refém da loucura e do descaso com a humanidade.

O jornalismo só pode ser exercido em ambientes democráticos. O terrorismo só é efetivo onde não existe democracia. Impossível conciliar a defesa dos direitos humanos com ações terroristas - o terror indiscriminado contra inocentes é um preito à morte, violência contra a vida.

Percebe-se no pronunciamento de Sérgio Vieira de Mello - que este Observatório publica em primeira mão - que ele reconhecia a importância do media criticism (crítica da mídia) na questão dos direitos humanos. Vale a pena recordá-lo, vale a pena respeitá-lo:

"Envolver a mídia no monitoramento de suas próprias atividades e no fornecimento de treino e recursos aos jornalistas para promover no seu trabalho, de forma simples e sábia, os direitos humanos e a liberdade".


OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA NA INTERNET

GAVETA DA MEMÓRIA
A responsabilidade pedagógica da mídia

Sérgio Vieira de Mello

Pronunciamento de Sérgio Vieira de Mello (em 21/11/2002), então à frente do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, no seminário "Visões para o futuro das comunicações", realizado em Viena, de 20 a 24 de novembro de 2002, por ocasião do décimo aniversário da instalação do centro de operações do International Press Institute (*) na capital austríaca. Título e intertítulos da redação do OI.

Sr. presidente, diretores e integrantes dos comitês nacionais do International Press Institute (IPI), representantes das organizações pela liberdade de imprensa, senhoras e senhores.

Sinto-me honrado em lhes falar esta noite por ocasião do 10º aniversário da sede em Viena do International Press Institute. Começo parabenizando o International Press Institute e todos os seus componentes por esta ocasião. Agradeço ao Ministério do Exterior da Áustria por patrocinar esta noite. Sei que a chanceler, Sra. Benita Ferrero-Waldner, falará a vocês amanhã, e esse discurso, como o de boas-vindas proferido hoje pelo presidente da Áustria, Sr. Thomas Klestil, simboliza a importância dada à liberdade de opinião e da mídia pelas autoridades e o povo austríacos.

Quando os escritórios do IPI no Spiegelgasse abriram as portas em 1992, muitos de nós estávamos ainda cheios da esperança e do otimismo nascidos com a queda do Muro de Berlim. Uma onda de liberdade parecia varrer partes do mundo que até então conheciam apenas a repressão. Em maio de 1991, por exemplo, jornalistas africanos se reuniram na capital da Namíbia, Windhoek, para um seminário regional de promoção da mídia independente e pluralista [em alusão ao encontro, 3 de maio passou a ser o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa]. A Declaração de Windhoek tornou-se o primeiro de uma série de compromissos, região por região, de apoio à liberdade das pessoas em toda parte de proclamarem sua opinião e terem acesso a uma variedade de fontes independentes de informação.

E, de fato, na década passada a imprensa em muitos países ficou mais independente e pluralista. As transmissões de rádio e TV têm sido liberalizadas. Jornalistas e outros trabalhadores de mídia ficaram mais profissionais. E, graças à internet, mais e mais pessoas ganharam acesso direto aos meios de comunicação de massa. Essas mudanças têm ajudado a estabelecer e a fortalecer a democracia em muitos países, permitindo aos cidadãos que façam escolhas com informação, portanto responsáveis, e que tomem parte nas decisões que moldarão suas próprias vidas e o futuro de seus países.

"Argumento da necessidade"

As aspirações por um mundo mais livre, mais justo que muitos de nós guardamos no coração surgiram a pouca distância daqui, na Conferência Mundial sobre Direitos Humanos de 1993. O consenso entre países muito díspares tanto sobre a suprema importância dos direitos humanos quanto sobre sua universalidade e indivisibilidade teria sido impensável apenas poucos anos antes da conferência. Impulsionada pelos ventos da mudança, a assembléia, que criou o posto que tenho hoje o privilégio de ocupar, clamou pelo fortalecimento do império da lei, da regência da justiça e da real e efetiva participação dos povos nos processos decisórios que afetam seu destino. Os líderes mundiais em Viena consideraram a promoção da liberdade de expressão tão importante quanto as demais.

Infelizmente, muitas de nossas esperanças esbarraram na realidade: vastas áreas do mundo mergulharam em conflitos ainda mais complexos, e a mordaça e a repressão apenas mudaram de face e de forma. Os jornalistas e a mídia, entre os beneficiários legais do mais alto nível de respeito aos direitos humanos de que deveríamos usufruir no fim da Guerra Fria, têm freqüentemente encabeçado as listas de vítimas de abuso na última década. Um olhar sobre o "Death Watch" do IPI em qualquer semana é um sóbrio lembrete de que a mídia com muita freqüência paga o preço final por corajosamente fazer seu trabalho, como testemunhei em muitas de minhas missões, inclusive, recentemente, com a perda de um amigo cinegrafista no Afeganistão.

No escritório do Alto Comissariado, temos mantido nossas próprias estatísticas, deprimentes. Fornecemos o apoio essencial ao Relator Especial para a Liberdade de Opinião e Expressão da Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas, atualmente Ambeyi Ligabo, que informa anualmente a situação mundial. O Sr. Ligabo sucedeu Abid Hussain, que em seu último informe antes de deixar o posto observou que o número de queixas anuais continua a aumentar. Em 2001, por exemplo, ele recebeu 1.900 comunicações (aumento superior a 10% em comparação ao ano anterior). No mesmo ano ele enviou 124 "apelos urgentes" em favor de indivíduos em risco iminente de abuso ou que tinham sido vítimas de desrespeito aos direitos humanos.

A maioria dos casos levados ao Relator Especial e ao meu escritório está relacionada a violações e ações contra profissionais de mídia. Parte do problema é a impunidade que de que gozam os infratores. Freqüentemente, a segurança nacional e o "argumento da necessidade" são usados pelas autoridades em muitos países para silenciar e/ou suprimir a mídia independente. Forças hostis e irregulares também visam os jornalistas, como ocorre com as equipes da ONU que denunciam seu comportamento.

Códigos de conduta

Gostaria de deter-me por um momento nas possíveis conseqüências da reação aos ataques terroristas para a liberdade de opinião e de expressão. Ainda que na ordem do dia na seqüência dos terríveis ataques terroristas nos Estados Unidos, no ano passado, na Indonésia e da Federação Russa mais recentemente, a questão sempre foi um dos principais focos do sistema de direitos humanos da ONU. Embora todos reconheçamos o dever dos Estados de proteger-se e a seus povos, se necessário com medidas excepcionais, em alguns casos tais medidas podem resultar numa quebra dos mais fundamentais direitos humanos. Elas podem levar à negação dos princípios pelos quais lutamos tão arduamente, como as sociedades livres com acesso à plena liberdade de expressão e ao direito de divergir. É particularmente importante então que os Estados considerem as implicações nos direitos humanos de qualquer passo que dêem em resposta a esta ameaça; que os direitos humanos estejam no centro de tal resposta, particularmente a liberdade de informação.

Responder ao terror retrocedendo nos direitos humanos arduamente conquistados é entregar a vitória aos terroristas. Não menos perigoso em tal visão é que quando países democráticos empregam atividades que atingem os direitos humanos estão incentivando regimes menos abertos de governo. Em nível internacional, o peso do exemplo, especialmente o de caráter negativo, não deve ser subestimado. As sociedades livres têm portanto uma dupla responsabilidade: proteger os direitos de seus cidadãos e não oferecer comparações fáceis ou pretextos baratos aos que tendem ao abuso de autoridade.

Outra feia conseqüência dos ataques foi a facilidade com que parte da mídia tratou certas crenças, países ou comunidades, com desrespeito, usando perigosas generalizações e estereótipos. Esta tendência, a par do assédio e da violência contra seguidores do Islã, continua a causar profunda preocupação. Felizmente, os casos de mídias canalizando discursos preconceituosos e espalhando animosidade foram exceção, compensados pela cobertura equilibrada e sensível da maioria dos veículos. Precisamos de uma imprensa livre para ajudar a prevenir uma ruptura que pode ter desastrosas conseqüências ao aumentar o potencial das formas extremas de violência. Precisamos identificar as razões deste estado de coisas altamente emocional e, juntos, detê-lo. A mídia tem uma responsabilidade pedagógica.

Isso me leva a outra questão delicada, motivo de tensão e violência, ou seja, o equilíbrio entre os imperativos da liberdade de expressão e a necessidade de conter o discurso do ódio e a incitação ao ódio, particularmente racial, étnico ou religioso. Sei que o IPI manifestou preocupação sobre propostas apresentadas durante os preparativos da Conferência Mundial contra o Racismo no ano passado. A linguagem da minuta criticada pelo IPI, que não foi mantida no documento final, teria estimulado os governos a estabelecer organismos de consulta nacional para monitorar, mediar e auxiliar na preparação de códigos de conduta. A maioria dos delegados da conferência concordou com o IPI, em que as propostas poderiam levar a restrições à independência da mídia e ser usadas em alguns países para reprimir formas de expressão que seriam consideradas legítimas em outros.

Compromisso renovado

Concordo com vocês em que o direito à liberdade de expressão deva permanecer íntegro, e em que esteja longe disso. O Relator Especial declarou que a ênfase em restrições ao direito à liberdade de opinião e de expressão ocorre em todo o mundo. O escopo de proteção no artigo 19 do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos [de 1966, só assinado pelo Brasil em 1992] é abrangente e, em geral, a proteção da liberdade é a regra, e sua restrição deveria ser a exceção.

Entretanto, como repete a mídia diariamente em sua cobertura, com o poder vem a responsabilidade. O Pacto também permite que a liberdade de expressão seja limitada se o exercício deste direito resulta na ruptura do direito de outrem. Especificamente, o Pacto determina que os Estados podem interferir na liberdade de expressão proibindo propaganda da guerra e defesa de ódio racial.

Não faltam exemplos de mau uso da mídia no estímulo ao ódio e ao fanatismo. Ruanda, a antiga Iugoslávia ou a retórica talibã vêm logo à mente. É um problema persistente, presente em várias regiões do mundo. Vimos recentemente um fenômeno semelhante na Costa do Marfim. Há obrigações legais internacionais, aceitas pela maioria dos Estados, que proíbem incitação ao ódio racial, religioso e étnico - não só anti-semitismo -, e é preciso aderir a elas. O Tribunal Penal Internacional também deveria funcionar como instância dissuasiva e como cão de guarda, pois tais práticas estarão sob sua jurisdição.

Sou de opinião que é preferível envolver a mídia no monitoramento de suas próprias atividades e no fornecimento de treino e recursos aos jornalistas para promover no seu trabalho, de forma simples e sábia, os direitos humanos e a liberdade; e também ajudem os cidadãos a participar plena e produtivamente de suas sociedades. Meu escritório está à disposição para cooperar de todas as maneiras possíveis nestes esforços. Na verdade, em alguns dias estaremos discutindo algumas destas questões num seminário que promoveremos sobre a interdependência entre democracia e direitos humanos. Um dos temas principais do encontro será "A mídia nas democracias: papel, responsabilidades e os direitos humanos". Não é um tema novo, mas que devemos revisitar, de tempos em tempos, com lucidez, vigilância e compromisso renovado.

Senhoras e senhores, votos de feliz 10º aniversário ao IPI em Viena e sucesso continuado em sua tarefa vital.

 [tradução: Marinilda Carvalho]

(*) O IPI é uma rede mundial de editores, executivos de mídia e jornalistas de prestígio dedicada à liberdade de imprensa e ao aperfeiçoamento dos padrões e das práticas do jornalismo.


5º BLOCO

Veja o que disseram os convidados após o programa:

Rio de Janeiro:
Francisco Carlos Teixeira - Prof. História UFRJ

"Sobre o ponto de vista específico da matéria sobre as FARC, eu acho que existem soluções simples. Teria sido muito fácil, por exemplo, do lado da matéria, publicar um quadro com o número de vítimas civis do conflito, que já seria um passo importante nesse sentido - uma solução que você aprende, inclusive, em qualquer segundo, terceiro semestre. Isso pode ser feito e deve ser feito. O conflito já se estende há tantos anos e tem já tantas vítimas civis, essa medida poderia ter sido tomada e seria uma forma ética de evitar que houvesse uma glorificação decorrente da entrevista. Como historiador, tenho uma observação a fazer a respeito do ponto de vista mais geral do debate. Nós ouvimos, com freqüência, as pessoas falarem que estamos começando uma nova etapa, que começou uma nova história. Se fôssemos acreditar nisso cada vez que isso é dito, nós começaríamos a história todo o ano. Não sei qual é a dimensão do fenômeno que está sendo vivido nesse momento, mas, acima de tudo, não podemos imaginar que o ocidente - ou que os Estado Unidos, ou qualquer outro país - tenha o monopólio da verdade, tenha o monopólio da civilização. Se existem países como a Índia, por exemplo, que tem uma tradição milenar de continuidade, com uma filosofia pacifista, até de proteção dos animais, e um budismo que prega a não-violência, por que o monopólio dos direitos humanos está no Ocidente? Os indianos teriam todo o direito de reivindicar isso também. Eu acho que não devemos assumir esse discurso peremptório de monopólio da civilização por uma parte do mundo, ou por um povo. Essa é uma advertência que eu teria muito cuidado em levar à frente."

São Paulo:
Sérgio Malbergier - Editor de Internacional / Folha de S. Paulo
"A mídia é usada pelos terroristas, mas não somos ingênuos em promover o terrorismo. A gente tem consciência de que somos usados pelo terrorismo. Uma coisa que podemos fazer é justamente mostrar os horrores do terrorismo, mostrar como é nocivo, como mata inocentes, como não tem propósito."

Paulo Nogueira - Editor de Internacional / O Estado de S. Paulo
"Depois do 11 de setembro vivemos uma fase nova na história humana e o nosso desafio é saber como cobrir a Guerra e a disseminação do terrorismo, dar a dimensão, educar, instruir as pessoas e fazer uma compreensão dela na defesa dos valores humanos. É um aprendizado. Estamos ainda num caminho tumultuado, entre erros e acertos, mas na verdade é necessário porque a fase é nova e nós vamos cada vez mais nos enfrentar em questões como essas discutidas pelo programa hoje."


PERGUNTAS

E-mails recebidos na semana de 26/08 a 02/09:

Marco Antonio Tourinho Furtado
Hoje no Estado de Minas vinha o retrato dos tempos terríveis que vivemos numa só seção internacional. Numa notícia a morte de 52 pessoas na Índia pelo terrorismo. Em outro o enterro do embaixador Sérgio Vieira, e noutra uma mulher palestina aos prantos entre oliveiras destruídas por Israel, e que eram o seu sustento numa terra seca e ruim, onde árvores demoram a crescer. Terrorismo não é só matar pessoas. É também retirar-lhes pela força a possibilidade de sustento e obrigá-las a saírem do lugar onde sempre viveram. Tristes e terríveis tempos.

Paulo Esteves Junior
A mídia deve ser totalmente livre para noticiar verdades com profundidade e consistência lógica, assim poderá ser didática, caso contrário tanto a omissão como a mentira serão formas manipuladoras da opinião que redundará na violência, a única expressão dos fracos e oprimidos, sem acesso à expressão de suas idéias. Há de se considerar no caso do Vieira de Mello os anos e anos de privações e morte de crianças por conta das sanções da ONU contra o Iraque, logo não vamos achar que pais que perderam filhos por essas sanções vão adorar a ONU.

Sérgio Torres, Rio de Janeiro
Penso que existe uma simbiose perfeita entre mídia e terrorismo. Este só tem razão de ser pela repercussão dos atos perpetrados dentro do meio que pretende atingir. O terrorismo é instrumento de guerra psicológica, visando enfraquecer o adversário pelo medo e pela insegurança. Para isso os atentados não podem ficar circunscritos às vítimas diretamente atingidas e a mídia, pela obrigação de noticiar, cumpre esse papel. Por outro lado, afora essa obrigação inalienável do exercício da liberdade de expressão, desgraça vende. Infelizmente a realidade é essa. A sociedade é assim e a mídia, não tendo muito a ver com isso, tira proveito. Daí as tragédias, fraudes, acidentes, denúncias em manchetes, jornalismo "investigativo", quarto poder etc. Há inclusive uma certa categorização por interesse comercial das tragédias anunciadas: uma bomba numa cidade pobre de país africano é ignorada, enquanto que numa capital européia é vista como atentado contra a civilização, pois o valor das vidas diferem apesar dos discursos humanistas gerando, ou não, circulação e audiência. Dentro do tema, a abordagem deve ter outro enfoque, a saber: já que a notícia é inevitável, como tratar o ato terrorista? Aí é que está o âmago da questão. Depende do viés em vigor e da cultura envolvida. Haverá tantas leituras quantos sejam os olhares envolvidos, chegando ao ponto de se criarem "realidades" inexistentes. E, nesse aspecto, a mídia brasileira atual padece de um anti-americanismo grosseiro. O onze de setembro é visto, e justificado por muitos, como decorrência da política de Bush. O ataque à ONU também. Até a explosão do foguete em Alcântara já foi insinuada como ato suspeito de interferência de "país interessado em sabotar o programa brasileiro". Qual? Na última entrevista ao JB, Sérgio Vieira de Mello declarou-se a favor da coalisão contra o Iraque, mesmo sem a confirmação da existência de armas de destruição de massa, dada a brutalidade do regime de Saddam Hussein e isso passou em brancas nuvens. O diplomata tragicamente vitimado foi vendido como uma espécie de Gandhi, Antônio Banderas e Bruce Willys vítima, não dos terroristas, mas da política de Bush, com a qual concordava. Por último, como esperar outra coisa da quase totalidade da mídia brasileira, sem falar no Governo, que defende a democracia e, ao mesmo tempo se recusa a condenar explicitamente o governo cubano, que prende e fuzila jornalistas e intelectuais pelo "terrorismo" de serem contra o regime? É complicado.

F. D. Guedes Jr.
Referente ao programa de 26/08 sobre imprensa e terrorismo, como telespectador assíduo desse programa, não posso deixar de notar que quando se trata de assuntos que direta ou indiretamente tenham relação com Israel e o sionismo, Alberto Dines parece perder a objetividade e se torna passional e parcial. Se ele tem tanta preocupação em que se mostre sempre os lados conflitantes da realidade, por que não convidou para este programa nenhum intelectual da comunidade árabe, que possivelmente teria um ângulo diferente do problema e das causas do terrorismo, ao menos no mundo islâmico? Atenciosa e atentamente.

Fernandes
Desculpem, pergunto a todos se o nosso crime organizado não é um terrorismo interno e não usa a mídia da mesma maneira que o terrorismo internacional? Caso cheguemos a alguma conclusão poderemos utiliza-lo como antídoto contra o nosso crime organizado. Falta interpretação na leitura do nosso povo brasileiro. Obrigado.

Larissa Maia
Por que vocês estão tão seguros que foram terroristas árabes os responsáveis pelo atentado de 11 de setembro de 2001? O assassinato de 11 de setembro de 1973 no Chile, não foi organizado pela CIA?

Marcelo S. Guimarães, Rio de Janeiro - Prof. Filosofia do Colégio Pedro II
Olá, acredito que o Sr. Dines comete uma imprecisão perigosa ao afirmar e reafirmar a frase "os fins não podem justificar os meios". Parece-me que ele quer dar a entender que "nenhum fim justifica meios violentos", embora esta idéia também necessite discussão acurada. Mas é preciso pensar que fins só podem ser realizados através de meios adequados, e nesse sentido a busca de certos fins justifica a adoção de certos meios. Se não forem os fins a justificarem seus meios, o que os justificará? A questão é que grupos terroristas supostamente têm fins que devem condizer com seus meios violentos - e seus fins não são necessariamente bem conhecidos, pois nem mesmo os grupos terroristas o são. Talvez seus fins sejam mesmo aumentar a instabilidade política do mundo, desmoralizar a política externa norte-americana, instaurar regimes autoritários em várias partes do mundo, impedir a democracia etc. Quais são os grupos que os promovem? Quais são os grupos interessados nessa "política do terror"? Se pensarmos com cuidado nessas questões, elas podem nos levar muito além dos chavões "Al Qaeda" e "Saddam Hussein"... A questão é que somente os fins podem justificar os meios - o problema é saber quais são os fins a serem perseguidos e os meios adequados para realizá-los. Nem sequer estamos de acordo quanto aos fins que devemos perseguir como humanidade - embora haja muitos discursos sobre democracia, liberdade, direitos humanos, as práticas de vários Estados e grupos não é promotora desses ideais. Mas quais são os meios adequados para realizá-los? Certamente, mais liberdade, mais democracia e mais direitos humanos estão entre eles. Mas em situações-limite, como lidar com a necessidade de uso da força? Um outro comentário é que o programa Observatório da Imprensa de hoje (26/08) está demasiadamente "emocional", com o uso de trilhas sonoras por vezes exageradas (me parece) para comover o espectador para seus pontos de vista. Parece-me que isso não é necessário, nem sequer adequado, para um programa que se pretende de crítica e análise da imprensa. Não será mais adequado adotar uma postura um pouco mais imparcial? Um abraço.

Wallace
Olá, vocês citaram no início do programa se não estaríamos na 3ª Guerra Mundial. Se os países ricos (principalmente EUA) fazem o que querem sobre os países mais fracos economicamente, não seria a única saída desses países se defender com todas suas "armas" - visto que a ONU se coloca como força de paz (apenas no pós-guerra)? Acredito que seja através disso que eles se protegem: religião, costumes, riquezas e valores. Como não têm armas super-poderosas eles se utilizam desses ataques como objeto de defesa. Você morreria por um Brasil mais democrático, rico e que respeitasse as classes e outros países latinos?

Oseas Gripp Silveira, Cachoeiro de Itapemirim / ES
A verdade é que a mídia tem sido tendenciosa e manipulada por políticos, religiões e governos. Se observarem, no fundo, há religião e jogo econômico que ingere. O embaixador de Brasília é real. A formação de profissionais com a rejeição americana é errado. Há uma filosofia religiosa camuflada nos formadores de opiniões.

Pedro Jacques, Porto Alegre / RS - Jornalista
Caros colegas, sendo bem objetivo, vejo distinção entre a obrigação de ter que divulgar um atentado como o de 11 de setembro, por ser um fato, um acontecimento e a questão se promove ou não o terrorismo, fica em segundo plano. Já a divulgação de entrevistas armadas com líderes terroristas, sutilmente está fazendo a imprensa se colocar no papel promotor do bandido. Até porque, o jornalista pode fazer todas as perguntas, mas não contrapõe ao criminoso. Nesse caso a imprensa está servindo de meio para a propaganda do terrorismo, pois sempre deixa que o entrevistado se apresente como um ser "humano" como qualquer outro, cuja diferença dos demais é que tem "idéias diferentes". Um dos professores referiu uma espécie de "cultura antiamericana". Isto é um fato, talvez gerado pela própria imprensa através de seu noticiário, sempre destacando especulações sobre possíveis desígnios maquiavélicos dos Estados Unidos. Por outro lado, achei muito confuso o raciocínio dos editores da Folha de S. Paulo e do Estadão. Francamente, não explicaram nada com nada. É lamentável.

Hugo, Florianópolis / SC
Li a matéria publicada pelo jornalista Daniel Castro na Folha de S. Paulo de ontem, dia 25 de agosto, pela Internet e fiquei simplesmente indignado com o fato da Rede Globo e SBT ainda defenderem uma lei contra a baixaria na televisão. Pura hipocrisia das duas emissoras, principalmente da Globo, por manter no ar uma novela exibida em um horário inadequado, face às suas cenas de violência, jamais vistas em nenhuma outra telenovela nacional (leia-se Mulheres Apaixonadas). Sobre isso, eu gostaria que o Observatório da Imprensa dedicasse uma atenção bastante especial aos tabus que aquela novela ameaça quebrar nos seus próximos capítulos. Além de já ter provocado uma grande repercussão com as suas cenas de violências exageradas, culminada com a morte de uma personagem em decorrência de uma "bala perdida", vem aí outras grandes barbaridades, confessadas pelo próprio autor (um tremendo cínico travestido de autor de novelas), como cenas de sexo entre um aluno menor de idade com uma professora que tem idade de ser sua mãe e uma cena onde duas mulheres se beijarão. Já não basta aquele lixo de final de tarde chamado Malhação, que tenta induzir a juventude a ser igual aos personagens criados, seja no visual ou na vida particular. Quanto ao SBT, a culpa cai em cima de Gugu Liberato e suas estratégias de obter audiência, apesar desta emissora ter banido boa parte das baixarias que consagraram o seu padrão inicial de "qualidade". Não vou falar das outras redes (Bandeirantes, Record, Rede TV! etc.), até porque a conversa se estenderá por mais cem linhas em média só de comentários sobre baixarias nestas emissoras de menor porte. É lamentável ver até mesmo a maior rede de TV de nosso país ser uma das principais contribuintes para o aumento da baixaria na nossa televisão, além de exportar para outras nações essa verdadeira vergonha nacional em forma de folhetim eletrônico.


Telefonemas recebidos em 26/08:

Luiz Caldeyra, Rio de Janeiro
Dines, a imprensa não tem que ter uma visão mais radical em relação ao terrorismo?

Andréa Rodrigues, Jequitinhonha / MG
Como a mídia pode ajudar no combate ao terrorismo?

Carlos Proncato, Salvador / BA
Qual é a impressão que se tem de um terrorismo de Estado, como faz os Estados Unidos com a Guerra no Iraque? Como ele deve ser enquadrado? Ninguém fala das pessoas que morrem na Guerra e sim dos 20 que morrem nos ataques. Acho que temos que insuflar o sentimento anti-americano nas crianças.

Sirlei Maria, Porto Alegre / RS
A mídia tem que ouvir a população, já que a população ouve a mídia. O cidadão merece mais respeito e tem que ter voz.

Sílvia Oliveira, Rio de Janeiro
Por que vocês nomeiam os palestinos de terroristas, se eles tivessem mísseis seriam um grupo de resistência à invasão e às humilhações?

Victor Ribeiro, Niterói / RJ
Sérgio Malbergier, nós que estudamos jornalismo sabemos que é importante ouvir os dois lados. Não me parece que a mídia esteja sendo manipulada pelo terrorismo, porque grande parte das notícias têm como fonte a imprensa americana, que tem se mostrado extremamente tendenciosa quando o assunto é terrorista.

Gildo Carvalho, Salvador / BA
O papel da imprensa é informar, independente de qualquer pressão de terrorismo.

Edilson Gomes, Fortaleza / CE
Eduardo Viola, você quer falar sobre a liberdade de imprensa, ou bem dos Estados Unidos?
João Almino, a atuação do governo Bush em relação ao terrorismo, traz algo de novo em relação à atuação dos outros presidentes americanos?

André Luiz, Belo Horizonte / MG
A imprensa é vítima do fato ou da manipulação dos fatos em prol das vendas?

Wolf Gobbels, Rio de Janeiro
Não teria sido o nosso diplomata Sérgio Vieira de Mello, ingênuo ao acreditar que os iraquianos receberiam bem uma proposta de um governo democrático? Ele não teria observado que um governo democrático, para os iraquianos, seria um fantoche do governo americano? Será que ele acreditava que um país que nunca viveu democracia veria isso com bons olhos? De quem teria sido o erro para acontecer a tragédia?

Ivan Nascimento, Montes Claros / MG
Se o ataque de 11 de setembro tivesse acontecido no Brasil, a mídia daria o mesmo valor e importância a este atentado?

Humberto Ferreira, Rio de Janeiro
A exibição que a mídia faz de mortos e feridos, vítimas de ações terroristas, não acaba sendo uma publicidade desses grupos que cometem esses atos?

Marcos Antônio, São Luís do Paraitinga / SP
Eduardo Viola, como evitar que a mídia faça a cobertura de um fato envolvendo terrorismo sem transformá-lo em um show de horrores?

Mauro Oliveira, Manhuaçu / MG
O terrorismo não tem atacado devido ao imperialismo americano?

Ruy Fulgêncio, Belo Horizonte / MG
As milícias terroristas de esquerda no Brasil na década de 70 não eram, também, organizações terroristas?

Tiago Sillman, Belo Horizonte / MG
Será que não foram os próprios Estados Unidos que colocaram a paz mundial em perigo com o ataque ao Iraque?

Antônio Carlos da Silva, Franco da Rocha / SP
A mídia, hoje, não poderia convocar cada integrante das facções radicais terroristas para sentar numa mesa e chegar a um denominador comum?

José Israel, Arapiraca / AL
Eduardo Viola, o que muda na história da ONU com a morte de Sérgio Vieira de Mello?

Samuel de Araújo Ribeiro, Praia Grande / SP
É difícil de compreender como pode haver a necessidade de formação universitária para o jornalismo, quando nós vemos na televisão um comportamento cada vez mais pornográfico de seus comunicadores. O que mostra que o que Sérgio Vieira de Mello falou sobre o sentido pedagógico não está acontecendo.

Abraão Kassim, Recife / PE
Antes de falar em terrorismo, devemos pensar se não estamos sendo preconceituosos em relação aos povos oprimidos.

André Luiz, Rio de Janeiro
O que eu vejo é que a mídia fica quase impossibilitada de ter um trabalho neutro. Para vender informação se colocam as notícias que mais agradam ao público. Portanto, essas informações sobre o terrorismo podem ser divulgadas com intento de vendas. O Brasil não é anti-americano, é contra qualquer forma de violência.

Tereza Fernandes, Florianópolis / SC
Por que as notícias de terror vendem mais que as boas notícias?

Vera Barbosa, Ribeirão Pires / SP
João Almino, na minha opinião a mídia não faz propaganda do terrorismo. A mídia transmite aquilo que realmente ocorre. Como poderiam ser transmitidos fatos como os de terrorismo sem sensacionalismo?

Carlos Augusto, Aracaju / SE
O termo terrorismo não é uma apropriação feita pelos Estados Unidos ao invés de ser de fato uma constatação?